Uma companhia que orgulha Portugal

  

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A companhia de bailado Quorum Ballet tem dado cartas um pouco por todo o Mundo, com o seu espetáculo “Correr o Fado”. Daniel Cardoso, diretor artístico da companhia, convidou a Forum a entrar no estúdio destes prendados artistas.

Estávamos em 2005 quando um grupo de bailarinos dava os primeiros passos em nome da companhia Quorum Ballet. A estreia foi em dezembro, mas os espetáculos à séria só arrancaram na segunda metade de 2006. Desde então, tem sido non-stop.

Num espaço amplo nos Recreios da Amadora, Daniel Cardoso aparece sentado numa acolhedora mesa para receber a equipa da Forum e partilhar as aventuras desta companhia que já atingiu o estrelato internacional. Mas a vida do Quorum Ballet nem sempre foi feito de rosas. “Manter uma companhia como esta a tempo inteiro num país como Portugal é muito difícil”, garante. Então como é que foram capazes de montar uma estrutura destas? “Foi sempre fruto de muito trabalho com muita qualidade que pudesse ser vendável”. Mas agora a situação parece estar bem melhor, já que “nos últimos três anos temos vivido só da venda de espetáculos e daí pagamos a estrutura toda”, revela Daniel.

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E a estrutura não é pequena. Além dos oito bailarinos, o Quorum Ballet é ainda composto por uma responsável de produção, dois responsáveis técnicos, dois responsáveis de marketing, comunicação e vendas e ainda uma pessoa que trata da parte financeira do grupo. Por agora, o apoio da Direção-Geral das Artes vai ajudando nas contas, apesar de não ser muito significativo. E este jovem não tem papas na língua, no que toca a contas: “eu não acreditoem subsídio-dependência. O trabalho tem de ter algo que o faça aguentar-se sozinho. Os subsídios são um apoio e não devem ser a base do trabalho”, acredita.

A verdade é que a equipa é que dá força à companhia. “Todos os bailarinos que aqui temos são altamente profissionais. Tenho aqui bailarinos que antes de trabalharem comigo estiveram na Companhia Nacional de Bailado e no Ballet Gulbenkian”, conta. E o sucesso explica a qualidade dos artistas.

Um bailado à portuguesa

Até há bem pouco tempo, ainda não eram muitos os que tinham ouvido falar do Quorum Ballet. No entanto, um espetáculo inovador arregalou os olhos de muita gente e fez com que estes jovens bailarinos (que têm apenas entre 20 e 35 anos): trata-se de um bailado com música ao vivo, tocada à guitarra portuguesa. Daniel Cardoso conta a história do surgimento de “Correr o Fado”: “Este projeto tem vindo a desenrolar-se desde há dois anos e meio, quase três anos. Fizemos uma peça muito curta que foi estreada na Casa da Música, no Porto. Era uma coisa pontual, era um congresso onde convidaram a companhia para criar uma peça com música ao vivo do Mário Pacheco, que é um virtuoso da guitarra portuguesa. Entretanto, surgiu essa oportunidade, a peça ficou com 25 minutos. Fizemos aquilo uma vez, uma coisa privada, e um dia decidi repor essa peça no aniversário aqui dos Recreios. E foi um sucesso tremendo. Por acaso, nesse dia tivemos uns convidados internacionais que vieram ver a companhia (dinamarqueses, holandeses e dos EUA). E vinham ver outra peça, mas apresentei-lhes aquela como um miminho porque tem muito da cultura portuguesa. Quando a viram, o que disseram foi que era aquilo que queriam. Aí eu propus-me a fazer uma peça de noite inteira.

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Neste momento o “Correr o Fado” tem uma duração de uma hora e meia, com música ao vivo, que tem muito a ver connosco, com o que é ser português, desde a parte cénica aos figurinos, tudo ligado nalgum ponto com a sensibilidade do que é ser português. E o resultado é onde estamos hoje”, observa, de um só fôlego, o bailarino, que é também diretor artístico de toda a companhia. E não tem receio de admitir que o Correr o Fado foi “o mais importante projeto que tivemos até hoje porque nos abriu uma série de portas a nível internacional que de outra forma talvez não tivéssemos conseguido”. E que portas! Além de terem passado por países como a Dinamarca, Singapura, Macau e a Sérvia, a melhor experiência terá sido passada na China. “O espectáculo que tínhamos em Xangai esgotou duas semanas antes. Isto foi ótimo porque um dos nossos medos era que não houvesse a possibilidade de ter a sala com pessoas suficientes. Depois disso, em Guangzhu, estivemos numa das melhores e mais belas salas do mundo”, conta Daniel Cardoso.

As boas apresentações já lhes garantiram um 2013 preenchido. “A tour deste ano já nos possibilita ir ao triplo ou mais de cidades no próximo ano”, assegura o diretor artístico do Quorum Ballet. Para o ano, o Quorum Ballet já tem espetáculos marcados um pouco por toda a Ásia, especialmente por várias cidades chinesas. Além disso, vão dançar em seis salas dinamarquesas.

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Por cá, ainda este ano, os Quorum Ballet vão dar um ar da sua graça em salas lusas. Nos dias 29 e 30, o Teatro Camões, em Lisboa, vai recebê-los para apresentar o Correr o Fado. Ao longo do ano, também Cascais, Angra do Heroísmo e São Miguel vão poder assistir a este espetáculo único. “Esta peça foi mais um grande risco que eu corri, pelo investimento e pela dificuldade técnica. Mas realmente funcionou. Só estas digressões internacionais quase mantiveram a companhia inteira. Cá em Portugal, apesar de ainda termos alguns espetáculos grandes, o espetáculo já não significam tanto dinheiro. Este mercado internacional tem vindo a compensar aquilo que não temos em Portugal”, diz Daniel Cardoso.

Quem é o responsável por tanto sucesso?

A resposta à pergunta dá-se com dois nomes próprios: Daniel Cardoso. Apesar de confessar que “com nove anos não queria ser bailarino” e “quando fui para a escola foi mais uma curiosidade”, a verdade é que o bichinho lá apareceu. Foi precisamente “quando fiz o meu primeiro espetáculo público, no Teatro São Luiz, eu tinha para aí 14 ou 15 anos”. Os estudos prosseguiram mas pouco tempo mais tarde Daniel decidiu sair do País para ganhar experiência. “Vivi fora cerca de 11 anos, nos Estados Unidos, no Brasil e na Dinamarca”, conta. Ao voltar para Portugal ainda trabalhou nalguns projetos mas, por coincidência, o Ballet Gulbenkian foi encerrado na mesma semana em que chegou a território luso. “Encontrei bailarinos com qualidade que estavam sem fazer nada e eu senti que não havia algo onde eu me pudesse enquadrar também”. Desta forma, “decidi começar um projeto que não pensei que tomasse esta dimensão tão rapidamente. A ideia era que haveria de tomar esta dimensão, mas com o desenrolar das coisas não pensei que o processo fosse tão rápido”. E ainda bem que assim foi! 

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