«Sonho ganhar um Grammy»

  

MATIAS DAMÁSIO - foto promo 3 800

«De onde eu vim até onde cheguei é muita coisa. Seria quase deselegante pensar em mais do que isso». Quem é o diz é Matias Damásio, o tal trovador romântico cujo tema 'Loucos' teve mais de 45 milhões de visualizações no YouTube. Agora, é tempo de 'Augusta', o álbum dedicado à avó, com as participações de Pérola, Aurea e Cláudia Leitte. A 24 de novembro, estreia-se na Altice Arena, em Lisboa, um sonho tornado realidade, a celebração do sucesso que está a anos-luz das origens humildes deste cantor angolano.

Porquê esta dedicatória em disco à tua avó?

É uma das mulheres importantes na minha vida. Este lado romântico enquanto compositor, cantor e sobretudo quando escrevo vem da minha avó. Ela era uma romântica incurável. Pregava o amor todos os dias, dizia que era a coisa mais importante do mundo. Fui o único neto que viveu com a minha avó. Uma vez que 90% das canções que escrevo estão ligadas ao amor, lembro-me dela. Recordo-me bem da forma como sempre me abraçava e beijava. Felizmente, ouvi muito cedo a palavra "amo-te" com ela. Já há muito tempo que queria homenageá-la e este ano senti-me espiritualmente preparado para poder agradecer àquela que é uma das mulheres que definiu os pilares da minha educação. Foi com ela que aprendi que uma infância com amor faz toda a diferença. Mesmo nas circunstâncias pobres em que vivemos, o amor fez toda a diferença. Isso eu devo à Augusta.

Ela era uma pessoa musical?
Não, mas era uma pessoa festiva. Cresci sem rádio nem televisão em casa. E não havia violas, nem nada. Lembro-me só de algumas canções tradicionais de batuque que ela cantava. Influenciou-me mais na transmissão de valores do que propriamente na música. A música aprendi na rua. Vivi num bairro com muitas casas que vendiam bebidas alcoólicas e tinham muitos gramofones. E foi ali que eu comecei a tocar. A minha avó era mais das palavras, era uma poetisa nata. Falava coisas muito sábias. Fui formatado pela minha avó.

Quando é que começaste a perceber que também sabias compor?
A minha mãe era lavadeira, foi durante muitos anos empregada doméstica. Lembro-me que ela chegava a casa com os pés inflamados. Foi sobre esse sofrimento que eu fiz a minha primeira canção. Quando comecei a escrever era mais como desabafo, sobre a minha vida, sobre a paz. Nasci em 1982, ainda vivi com o país em guerra, e as minhas letras eram desabafos. Foi com essa música sobre a minha mãe que fui a um concurso da televisão pública da Angola. Ganhei o concurso, o carro zero quilómetros, tinha eu uns 18 anos. Isso incentivou-me a ficar na música. Mais do que entrar na música pela beleza da arte, eu entrei porque precisava de um trabalho. Encontrei um caminho para melhorar a minha condição de vida. Entrei na música como meio de subsistência mas depois descobri a magia.

A tua avó teve oportunidade de ver o teu sucesso na música?
Infelizmente não, quando morreu eu ainda não tinha uma carreira profissional. Mas sempre me incentivou a ouvir música. Mas não teve oportunidade de presenciar essas felizes glórias que temos hoje.

Como é que tens digerido todo este sucesso? Nunca te deslumbraste?
Também já me deslumbrei um bocado! Gravei o primeiro disco em 2005, que entrou logo para os tops. Eu tinha 23 anos. A minha base familiar ajudou-me muito. Como não entrei na música para aparecer na televisão, mas sim porque queria um trabalho, então nunca me deslumbrei muito. Sou um artista, um trovador. A televisão, a rádio e as revistas acontecem por consequência disso. Mas nunca fui à procura disso. Também foi fácil não me deslumbrar no início porque logo a seguir casei-me com uma mulher maravilhosa, tive filhos muito cedo. Quando ganhei os meus primeiros dólares já pensava em ter casa própria, em carrinhos de bebé, em guardar dinheiro para o meu filho se formar. Como sou o filho mais velho também já cresci com esse sentimento de responsabilidade para com os meus irmãos. Queria mudar de vida e isso ajudou-me a ter os pés no chão.

MATIAS DAMASIO AUGUSTA CAPA 800

Com este novo álbum sentes a responsabilidade de igualar o êxito do anterior?
Nunca tenho necessariamente essa pressão de igualar ou de fazer algo. As pessoas chegam a mim, nunca vou atrás delas. Não estou formato para isso. É nisso em que acredito: em ser um pouco mais antiquado. Acredito no amor nessa perspetiva. Eu canto com a verdade e espero que as pessoas o compreendam. Os caminhos são sempre diferentes porque as canções são sempre feitas em circunstâncias diferentes. A minha vida é uma sequência. E o que cantam nas canções é o que vou vivendo. Por isso cada disco é uma fotografia diferente. Os sucessos têm a ver com o momento em que foi feita a canção, a data de lançamento, a forma como chegou às pessoas, as estações do ano. É muito difícil chegar-se a essa fórmula. Para mim é só um disco feito com todo o amor e coração, com as melhores palavras que tenho para me exprimir. A minha linguagem é universal. A minha escrita é simples. Sou fruto da música e da literatura angolana, mas também sou fã de Michael Jackson, Madonna, Roberto Calos, Coldplay ou Jay-Z.

A 24 de novembro é a tua estreia na Altice Arena. Era um sonho antigo?
É a realização de um grande sonho. É uma sala mítica, emblemática, onde já cantaram os maiores artistas do mundo, onde já fui ver concertos e já participei em vários concertos. É um privilégio ter esta oportunidade de cantar para um grande número de pessoas. É a celebração destes anos de sucesso e dos fãs que compreendem a minha linguagem. Em termos de produção pedi tudo o que sonhei: uma orquestra, sopros, telas enormes. Mais do que lotar, eu quero chegar ao coração das pessoas. Quero que as pessoas saiam de lá com amor no coração, que este concerto mude alguma coisa nas suas vidas.

E depois disto, que outros sonhos ficam por realizar?
Na minha vida as coisas são feitas uma de cada vez. Não tenho grandes planos. Claro, que sonho ganhar um Grammy, um dia. Gostava muito de tocar no Estádio da Luz, por vários motivos. Mas, com a humildade que a minha vida sempre foi, eu vou dando passo a passo. A minha vida está a ser uma alegria, uma vitória, mas não faço planos a longo prazo. Não tenho metas. De onde eu vim até onde cheguei é muita coisa. Seria quase deselegante pensar em mais do que isso. Tudo o que recebi está muito além das expetativas de quando era miúdo. Cresci numa altura em que os mais velhos não nos deixavam sonhar este tipo de coisas: tinham medo que nos magoássemos.

(Fotos de Celso Colaço)