«Ainda sinto que tenho muitas coisas para dizer»

  

Boss AC 800

Ontem, ou melhor, há 20 anos atrás, ele foi o Manda-chuva. Hoje tem um disco novo e continua a rimar contra a maré, contando histórias pessoais. Amanhã, ou seja, nos próximos meses, não faltarão oportunidades para conhecer ao vivo este álbum. À sexta-feira ou noutros dias da semana.

'A Vida Continua'... é um título positivo ou algo desiludido?
É totalmente positivo. Tudo se resolve, amanhã é outro dia, há que lamber as feridas, seguir em frente. O disco acaba com crianças e passa uma imagem de futuro. Tive presente o conceito de tempo: o Ontem, o Hoje e o Amanhã. O Ontem vem da necessidade de homenagear as minhas origens, de quando me apaixonei pela cultura hip-hop. O Hoje porque tenho de me manter relevante: o que eu fiz ontem já está feito. E o Amanhã porque tenho sempre os olhos postos no que vou fazer a seguir.

No tema 'O Verdadeiro' assumes que sentes falta de quando o hip-hop estava no início. Porquê?
Há algum saudosismo porque foram tempos de descoberta, mas já passou, a vida continua. Essa música relata o meu, o nosso percurso, uma vez que conta com a participação dos Black Company e do DJ Ride. Eu e toda esta malta abrimos caminho para que o hip-hop possa estar hoje a viver o seu momento mais fértil e produtivo de todos os tempos em Portugal. Isso não teria sido possível se não tivéssemos trilhado esse caminho.

Como encaras esta aproximação do hip-hop à cultura mais mainstream?
É um fenómeno em crescendo que agora está mais visível. Muitos dos projetos de hip-hop nacional, com mais qualidade e visibilidade, são fenómenos mais de Internet e coisas espontâneas. Nesta era do digital, o paradigma mudou e já não se precisa da "máquina" como antigamente. Há uns anos atrás era impossível fazer alguma coisa sem editoras, pois não se conseguia chegar a ninguém. Hoje, posso fazer uma música no meu quarto que depois ponho no YouTube e no dia seguinte acordo e sou uma estrela. O hip-hop massificou-se de uma forma que se tornou o novo pop. As fronteiras estão cada vez ténues: já não se sabe onde começa um e acaba o outro. Há uma miscigenação de estilos e linguagens.

Como é que te manténs atualizado?
Essa foi uma das razões que fez com que estivesse 6 anos sem editar. Tive de fazer essa introspeção e perceber qual a minha relevância nos dias de hoje, quando há tanta coisa a acontecer. Será que ainda vale a pena? Será que ainda tenho música para dar? E a resposta foi um rotundo sim. Ainda sinto que tenho muitas coisas para dizer. Mas por ter essa noção do tempo que passa, quis fazer uma coisa que honrasse as minhas raízes mas sempre com uma atualidade: Boss AC já de 2019. Tive me adaptar. Sinto-me atualizado mas não deixo de ser quem sou. Não descurei nunca a minha essência e isso reflete-se neste disco com coisas mais próximas dos anos 90, outras com uma linguagem muito mais atual com as colaborações de malta mais emergente como Super Squad, Ella Nor e Matay.

AJC BOSS AC 0500

De novo celebras as tuas raízes cabo-verdianas, cantando em crioulo e convidando a banda Ferro Gaita...
É uma constante no meu trabalho. É muito difícil adjetivar a minha carreira mas, e talvez seja a razão de ainda aqui continuar, tenho sido persistente e coerente. No início as coisas não foram muito fáceis, não éramos vistos como músicos na verdadeira aceção da palavra. Havia muita desconfiança à volta do rap. Com altos e baixos mantive-me fiel aos meus valores e objetivos. Faço sempre questão de ter essa lado cabo-verdiano nos meus discos.

Até que ponto as tuas letras são autobiográficas?
Ah, completamente!! Há uma ou outra música em que posso relatar algo que alguém próximo de mim tenha vivido mas sobretudo este álbum é muito pessoal. Há muitas mensagens quase subliminares que exigem atenção. Faço muitos recados a mim próprio. Musicalmente sou muito influenciado pela música cabo-verdiana mas também pela portuguesa, até porque cresci no bairro da Bica (Lisboa), pela muita música brasileira que a minha mãe de dava a ouvir ou o pelo muito jazz que o meu pai me dava a ouvir. Com os meus tios tive doses cavalares de reggae, que foi o meu primeiro amor musical. Ainda hoje ouço. E depois muito funk e, eventualmente, muito rap.

Fala-nos de 'Bernas', o tema no qual descreves o choque da morte desse teu amigo.
O Bernas foi meu DJ durante 14 anos. Foi uma morte que me afetou bastante porque, tal como a canção conta, a última vez que falámos ao telefone foi numa quinta-feira sobre irmos entrar em estúdio na segunda-feira. Trabalhámos duas músicas para este álbum: uma chamava-se 'A Vida Continua...' e a outra 'Morreu'. Diz-me lá se isto não é irónico!?! É um sinal da vida. Isto bateu-me à séria. Não sou supersticioso ou religioso, mas dou muita importância a simbologias. As estrelas alinharam-se para me enviar uma mensagem muito forte. Quando fiz a música foi mais para exteriorizar os meus sentimentos. Foi escrita e gravada de rajada, numa manhã. Nunca mais a ouvi porque me perturbava. Refleti muito se a incluía no álbum. Logo a seguir vem 'A Vida Continua...' , na qual o Bernas colaborou e que ele dizia que tinha mesmo sido escrita para ele...

(fotos de Arlindo Camacho)