Últimos dias para ver "A 20 de novembro" (atualizado)

  
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A peça “A 20 de Novembro” de Lars Norén, encenada por Francis Seleck está em cena desde 9 de Janeiro no Teatro da Politécnica (Artistas Unidos) em Lisboa. Ao contrário do que estava previsto, vai ter mais duas apresentações dias 22 e 23, hoje e amanhã.
A FORUM esteve presente e teve oportunidade de estar a conversa com o único ator, João Pedro Mamede que interpreta o papel de Sebastian Bosse.

João começou por fazer teatro em Almada na formação Cena Múltipla da Associação Cultural O Mundo do Espectáculo que ainda hoje decorre. Com 14 anos, começou logo com Francis Seleck como formador. Hoje, com 20, estuda na Escola Superior de Teatro e Cinema em Lisboa e é dos raros que nesta profissão quase inexistente pode dizer que conseguiu trabalho tão cedo. Durante a nossa conversa, se por um lado elogiava o que se aprende no antigo Conservatório, por outro culpava quem incentiva os jovens a seguirem a carreira de ator neste país que não tem o hábito de ir ao teatro.

Ainda na formação, João recebeu a proposta de fazer a peça “A 20 de Novembro” do seu formador/encenador belga que ainda continua em Almada a formar jovens. Em 2011 a peça esteve pela primeira vez em cena na cidade de Almada.

Na construção da peça, João teve que fazer um estudo intensivo “Quase documental”, como o próprio diz. E fazê-la de novo, passados dois anos, foi como começar outra vez do zero. A peça só tem um ator, mas não se pode chamar de monólogo. É sim um diálogo com o público que se encontra na sala e é extremamente provocado a participar. João caracteriza o facto de estar sozinho em cena como uma grande responsabilidade, com o acréscimo de o público estar iluminado e poder responder ao ator, o que faz com que ele tenha que estar pronto para qualquer tipo de público e reação.

 “A 20 de Novembro” é uma peça sufocante e forte, assustadoramente real e atual. Lars Norén, conceituado encenador sueco, organizou os próprios textos de Sebastian Bosse, que escreveu antes cometer o massacre a 20 de Novembro de 2006 na sua antiga escola na Alemanha. O olhar de Sebastian Bosse é penetrante e faz nos sentir desconfortáveis. Sebastian vem falar-nos, uma hora antes de partir para a sua vingança no sítio onde foi vítima de bullying e se apercebeu da inutilidade da vida, a ridícula forma como a sociedade se norteia e exclui todos os que lhe são estranhos. Esta é a oportunidade de o excluído falar e nos explicar tudo o que está para trás do derradeiro ato que irá cometer. A última coisa que se pode dizer sobre Sebastian é que ele tenha cometido um ato impulsivo: não, Sebastian vai pensar e procurar a justificação para todos os seus atos, medindo todas as consequências, chegando à terrível conclusão de que não há outra maneira, apesar de ter em conta que irá matar pessoas que nunca lhe fizeram nada, que magoará os que ama ou aqueles que “pelo menos uma vez foram simpáticos para mim”. Infelizmente Sebastian a 20 de Novembro de 2006 não conseguiu ver outra maneira de dizer basta, ofuscado pela falta de sentido deste mundo e acreditando que é o anjo da mudança.

Esta peça que se torna tão atual pelos últimos acontecimentos de massacres de crianças em escolas, e que aborda um leque vasto de problemas sociais, estará até 19 de Janeiro em cena fazendo com que todos os que se disponham a sentar-se à frente de Sebastian e falar-lhe saiam com uma noção do teatro e do mundo diferente do usual.