Logan: este universo não é para velhos

  

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Fechando a trilogia de filmes sobre Wolverine, Logan traz-nos uma nova visão sobre o universo dos super-heróis – e sobre a forma como são contadas as suas histórias.

Realizador: James Mangold
Com: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Dafne Keen
Rating: R (maiores de 16 anos)

“Toda a gente sabe que a velha fórmula não está a resultar como resultava”, explicou James Mangold, o realizador de Logan, à Vanity Fair. Uma rápida visita ao site da Marvel pode elucidar-nos relativamente ao que refere o cineasta americano: desde 2000, mais de 30 filmes foram realizados ou estão agendados, dentro do universo Marvel. Grande parte dos títulos foram lançados nos últimos quatro anos.

A fórmula a que se refere Mangold, de resto, foi fundada em 2000, com o lançamento de X-Men, de Bryan Singer. Embora com um nível de produção bastante mais modesto, o filme mostrou que revisitar o universo dos super-heróis, utilizando novas técnicas e linguagem cinematográfica, trazia uma garantia: sucesso de bilheteiras.


Trailer de Logan, com música de Johnny Cash. Recorde-se que James Mangold é o realizador de Walk The Line (2005)

A tendência seria confirmada com Spider-Man e, durante os anos seguintes, os grandes estúdios apostariam neste tipo de projeto – reutilizar histórias antigas, demonstrando, à imagem do universo da banda desenhada, os imensos e notáveis poderes

de indivíduos excecionais.

17 anos – e 6 filmes – depois, James Mangold volta a contar a história de Wolverine, desta vez, tendo em atenção esta fórmula. Para Mangold, o público quer ver novas abordagens. E os estúdios de produção estão atentos a essa necessidade: “os estúdios conseguem, com o milagre das máquinas de marketing, espremer o precisam para não perder dinheiro nestes filmes – mas acho que estão a ficar mais assustados e procuram duas coisas: formas de fazer estes filmes custarem menos e maneiras de os fazer sentir frescos”.

De acordo com o realizador, na preparação deste filme, o objetivo passou por “tentar inclinar o filme para a personagem”. É aqui que surge o “novo velho Wolverine”. Em Logan, ele é sobretudo tratado pelo seu nome “civil” (James Howlett), usa óculos para ler, coxeia da perna direita e tem em mãos a tarefa de cuidar de Charles Xavier – o poderoso Professor X – que sofre de uma doença mental degenerativa. Ambos tentam ajudar uma criança de 12 anos que apresenta capacidades extraordinárias, a primeira mutante que encontram em anos. 

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Aparentemente, Mangold e Jackman retiraram inspiração em filmes como The Wrestler e em westerns como Shane – Os Brutos Também Amam. Em 2013, o realizador já tinha procurado construir um retrato mais humano de Wolverine, num filme rodado no Japão. Desta feita, o novo filme de Mangold pretende mostrar um outro lado do super-herói: o que acontece quando envelhecem? E o que acontece aos filmes de super-heróis, quando a fórmula envelhece?

O resultado atinge o espectador com indiscutível intensidade. As habituais representações de super-heróis como seres todos poderosos, imunes aos problemas que nos afligem, contrastam fortemente com o retrato do super-herói enquanto alguém habitado por dúvidas, dores ou arrependimento.

A violência e brutalidade presente em Logan parece ser também, de alguma forma, uma resposta aos retratos de guerras polidas e limpas de blockbusters, confinadas ao PG-13 (13 anos de idade). "Na vida real, as pessoas morrem", diz Logan, a certa altura, referindo-se ao exagero da representação do Universo X-Men.    

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Wolverine e Laura procuram encontrar um caminho, num mundo em que os mutantes não encontram espaço

A certa altura, durante o filme, é o próprio Logan que ataca as representações de super-heróis, referindo-se ao facto de as coisas más do mundo não poderem ser resolvidas por “um idiota de collants”. É esta desconstrução de um universo (cada vez mais) sedimentado no nosso imaginário que impele a narrativa de Logan.

Não sendo uma abordagem absolutamente original, Logan tem a virtude de confrontar a forma como consumimos este género amplamente massificado de filmes. O filme não traz em si uma fórmula ou solução – não deveremos esperar um Kent, um Parker ou um Stark, num futuro próximo.

As “novas formas” encontradas pelos estúdios de que fala James Mangold deverão aproximar-se mais dos recentes Deadpool ou até Ant-Man. Mais violência, mais humor, mais autorreferenciação, como se a lente tivesse engolido a internet. A fragilidade, a dúvida e a nuance não cabem num filme de super-heróis. Afinal de contas – e parece ser essa uma das mensagens de Logan – o universo dos super-heróis não é para velhos.