“O ensino é ajudar cada um a fazer as suas descobertas”

  

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Em entrevista a António Ponces de Carvalho, o diretor da Escola São João de Deus descreve uma instituição de ensino com uma oferta formativa diversificada e com um método de ensino que conserva a sua atualidade, através da história. De acordo com Ponces de Carvalho, a Escola Superior de Educação João de Deus apresenta uma série de oportunidades: da possibilidade de obter um diploma de curso técnico superior profissional, a licenciatura, bem como mestrados, num ensino que aposta numa aprendizagem aliada à prática no terreno.

Forum Estudante (FE): Mais de cem anos de história, marcados pela instituição de um método no combate à iliteracia. Quais são as vantagens advenientes da Cartilha Maternal?
António Ponces de Carvalho (APC): A Cartilha Maternal surge de um convite de um francês, [Roland] Gaubert, que escreve uma carta a desafiar João de Deus (que era um poeta, não era um especialista em ensino de leitura) a desenvolver um método para ensinar a ler. Ele achou o projeto de tal maneira interessante que o abraçou e levou 10 anos a concretizá-lo.
Não foi um projeto feito de ânimo leve: debruçou-se a estudar as questões da língua e, talvez por isso, a cartilha terá ingredientes que, passado mais de 100 anos, continuam plenos de atualidade. Quando hoje comparamos aquilo que dizem os maiores especialistas mundiais sobre o que deve ter um bom método para ajudar as crianças a aprender a ler, encontramos esses ingredientes todos na Cartilha Maternal. E como João de Deus não era um pedagogo, não teve que seguir as correntes pedagógicas, que na altura existiam e que estavam completamente ultrapassadas. Em Portugal, existia a chamada Cartilha de Castilho, que hoje é um método que todos reconhecem que não tinha nexo, mas à altura era o conhecimento científico que existia. Chamou-se de Cartilha Maternal, com grande intuição, pondo a tónica sobre a questão que deveriam ser as mães a ensinar os filhos. A importância do afeto e do amor nas aprendizagens, tema que hoje está cientificamente comprovado.
Por outro lado, enquanto como poeta dominava muito bem o código linguístico da língua portuguesa, que é outros dos aspetos que está bem plasmado nesta publicação e que todos os autores são unânimes em referir. E por isso, um bom método de leitura é aquele que permite ao aprendiz, ao leitor, aceder rapidamente ao código linguístico. Transformou-o no projeto da sua vida.

FE: Na licenciatura na área da educação básica (e mestrados contíguos), optam por ter oferta formativa sobre a Cartilha?
APC: Claro. Isso é fundamental, é um dos aspetos mais importantes para que, quando um professor estiver presente perante a sua turma, seja capaz de dominar um método para os ensinar a ler e escrever, para os ensinar as operações aritméticas, para os ajudar a aprender a contar. Um erro muito grande, em que se tem caído na formação em Portugal, é a ideia de dar uma série de métodos, sendo que os alunos ficam com algumas pistas sobre os diversos métodos, mas depois na realidade não sabem aplicar nenhum.
A aprendizagem da leitura implica toda uma série de desenvolvimento de estruturas cerebrais. Quanto mais leituras forem feitas, mais desenvolvidas ficam essas estruturas cerebrais, que são importantes, não só para a leitura, mas para muitos outros aspetos do dia-a-dia. Por isto, é fundamental a questão da leitura.
Nos jardins escolas São João de Deus, nos 55 centros educativos espalhados pelo país, em termos das provas nacionais, tivemos 96% de positivas a português e no 2.º tivemos 100% de positivas. Não tivemos uma única criança, um único aluno que tivesse negativa (provas elaboradas e corrigidas pelo Ministério da Educação). Isso dá conta que efetivamente a Cartilha Maternal, o método de leitura de João de Deus, tem bons resultados.

FE: O que diferencia a oferta formativa da Escola Superior de Educação João de Deus, de outras formações ao nível do ensino superior?
APC: Eu penso que cada escola é diferente das outras. Tem o seu projeto educativo e ainda bem que assim é. Em primeiro lugar, para além da Cartilha Maternal, temos toda uma série de materiais, de metodologias para ensinar. Utilizamos várias metodologias experimentais para o campo das ciências e o facto de termos sido pioneiros na formação de educadores é importante.
Fomos o primeiro curso de educadores de infância em Portugal, em 1920. Neste sentido, temos uma larga experiência acumulada. E com isso aprendemos sempre, com o que é bom e com o que é mau. Vamos visitar sempre para aprender, e para que os nossos alunos conheçam outras realidades educativas, outras formas de fazer e, por isso, promovemos várias visitas de estudo. Isto também faz parte do nosso projeto educativo: diversificar as experiências educativas, realizamos várias conferências aqui no museu, em que trazemos especialistas de várias partes do mundo, para poderem apresentar novas ideias.
Os cursos são difíceis e trabalhosos. As notas conquistam-se com dedicação, com empenho e com esforço. Porque consideramos que, para as nossas crianças, temos a obrigação de lhes oferecer os melhores educadores, os melhores professores, com a melhor preparação, quer científica, quer pedagógica, mas sobretudo humanista. Há uma série de aspetos que hoje se consideram dentro do campo da chamada inteligência emocional que fazem toda a diferença em relação ao sucesso. Isso faz com que a grande maioria dos nossos profissionais que saem aqui da escola tenham uma grande aceitação no mercado de trabalho.

FE: Tiveram alguns problemas com a acreditação de mestrados. Essa situação já está completamente ultrapassada?
APC: Todos os nossos cursos já estão acreditados e registados pela Direção Geral de Ensino Superior. Essa situação foi um pequeno problema burocrático, com enorme prejuízo para a escola e para os nossos alunos. Neste momento, já está tudo acreditado e registado. Vamos começar os mestrados de formação dos educadores de infância, onde se inclui mestrado de formação de educadores de infância e do primeiro ciclo, que dá dupla titularidade. Ou seja, o diplomado pode trabalhar quer no pré-escolar, quer no primeiro ciclo. Isto permite trabalhar com crianças desde os 4 meses até aos 10 anos. Depois há mais dois mestrados que são novos e são de formação de professores do primeiro ciclo e do segundo ciclo em duas vertentes. Há um que é para professor de 1.º ciclo e professor de 2.º ciclo na vertente de português, história e geografia. Depois, há um que é professor de 1.º ciclo e professor de 2.º ciclo na vertente da matemática e das ciências da natureza.

FE: Existe também um Centro de Investigação João de Deus (CIJD), de apoio e acompanhamento a projetos. Como é que é o seu funcionamento?
APC: O Centro de Investigação congrega professores aqui da escola e professores convidados de outras instituições que têm um conjunto de projetos de investigação. Alguns com países de língua oficial portuguesa, como o Brasil, outros feitos com Espanha. Cada docente ou conjunto de docentes tem total autonomia para propor um projeto de investigação e o conselho científico de investigação aprova os projetos.
Temos ainda projetos em várias áreas, por exemplo, temos um muito interessante de como é que as crianças leem as emoções. Vários estudos apontam que o sucesso da vida está muito mais dependente da inteligência emocional, do que da chamada inteligência cognitiva. Existe ainda uma revista científica com artigos de diversos docentes de diversos países, que por vezes tem artigos bilingues.
Uma outra vantagem é que temos uma rede muito grande de parcerias com instituições estrangeiras, porque coincide eu ser presidente do Comité Português da Organização Mundial Pré-escolar, que é a mais antiga ONG no mundo. Isto permite que os nossos alunos tenham as "portas abertas do mundo", quando querem fazer estágio, por exemplo, numa escola na Suécia, no Brasil ou na América.

FE: Que mensagem gostaria de deixar aos jovens que possam vir a ingressar na Escola Superior São João de Deus?
APC: Que são muito bem-vindos, que vão sentir-se muito felizes, porque é muito edificante trabalhar aqui. É, de facto, muito trabalhoso mas tem toda uma equipa para os ajudar a percorrer este caminho e a ultrapassar obstáculos. Desde 1882 que falamos na questão da ajuda à aprendizagem: o ensino é ajudar a aprender, ajudar cada um a fazer as suas descobertas e as suas aprendizagens, mas para isso precisa que alguém o ajude neste caminho.