"Vejo este disco como uma viagem"

  

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Joana Barra Vaz falou à Forum do seu novo álbum - "Mergulho em Loba" - o segundo da trilogia "Flume". Entre as referências cinematográficas e a viagem pelo curso de água (ainda sem último destino), há novas sonoridades para descobrir.

Depois de, em 2012, lançar o EP “Passeio pelo Trilho”, Joana Barra Vaz apresenta agora o álbum “Mergulho em Loba”, dando continuidade à trilogia “Flume” – um trilho musical ligado à água, ainda sem último destino, onde a influência do cinema se faz notar. “Mergulho em Loba” fala-nos do mar, de paisagens, da natureza. Mas também das pessoas que a compõem e que encontram novos cenários e contextos. Por tudo isto, conta Joana Barra Vaz, “Mergulho em Loba” não é um olhar parado sobre a paisagem: “vejo este disco como uma viagem”.

Para além de compositora e intérprete, és também realizadora, argumentista e trabalhas na área de edição de vídeo. Sentes que a música é o elemento que une todas estas vertentes?
Hoje em dia, começo a acreditar que sim. Tenho a teoria que pode ter sido por alguma sensação de não conseguir ser música que escolhi uma área visual. Para me exprimir de outra forma. Mas não consigo escolher uma das áreas, nem quero. Ao longo da minha vida, escolhi sempre várias áreas artísticas e quis dividir-me entre elas. Fiz um percurso variado até chegar ao cinema. E aí comecei a achar que o cinema é que unia tudo. Não era a música. E ainda acho isso. Porque o cinema é que me trouxe esta formação de conseguir estruturar um disco, escrever um disco, fazer pesquisa…

Olhando a questão ao contrário, no teu disco nota-se uma certa influência do cinema. Desde logo, na visualidade que procuras na música…
Aliás, os discos nasceram assim. A trilogia “Flume” nasceu quando percebi que conseguia distinguir cenários e sensações. Acho que essa análise é de uma pessoa de cinema. Houve gente que me disse: “tu fazes discos como quem faz um filme”. E isto podia não ser bom. Pode ser uma coisa estranha. Mas eu achei que era o maior elogio que me tinham feito (risos). Porque tinha conseguido pôr essa sensação de filme dentro da música.

Por outro lado, a própria ideia de trilogia é algo cinematográfica. Tens associado os discos “Flume” à ideia de um curso de água…
A água une os cenários que eu quero tratar. É também um elemento bastante abrangente e une cenários que podes não estar a pensar. Desde logo, é o que une o Mundo – é uma cola de territórios. Existem uma série de metáforas que quis explorar.

Neste curso de água, começaste por um ambiente campestre, no primeiro EP, e passaste agora para o mar. Para onde vai esta viagem, ou seja, onde é a terceira paragem?
Ainda não posso dizer. Há muitas decisões que vou ter de tomar. Por outro lado, há também uma pressão que prefiro não ter de lidar. Sou tirana contra a tirania dos prazos (risos). Mas é natural que existam pistas. Eu componho muito sobre o que já fiz, por isso, é natural que existam pistas.

Voltando então ao início do curso, quais as diferenças principais do primeiro EP para este álbum? 
Uma das coisas que me dá mais prazer é mudar toda a estrutura de composição: trocar os instrumentos, os timbres, adaptá-los às tais imagens visuais. Este é um processo que pode ou não ser óbvio. Por exemplo, eu achava que este disco ia ser muito silencioso e descobri que não. Os assuntos que trato são menos românticos do que pode fazer parecer. As letras são mais densas, mais contemporâneas. Também muito portuguesas e ligadas à austeridade. Isto porque acabei o disco nos anos 2012 e 2013 – que foram dramáticos – e há muita coisa no disco que se refere a isso. Acho que, nessa altura, as pessoas se sentiram muito sozinhas. Houve pessoas que entraram em situações que nem consigo imaginar: perderes a tua casa, considerares colocar a tua vida em risco, abandonar o País, não saber o que será dos teus filhos…

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De que forma é que esse tema se integra nas outras ideias que compõem o disco?
Eu comecei por fazer uma procura panorâmica. Pensei: “a questão da ligação da mulher com o mar é interessante, a necessidade do mar é interessante, a ideia de viagem interior que o mar representa é interessante”. Inicialmente, até achei que isto era uma ideia para um filme. Perguntei-me o que faria uma pessoa ser um “lobo do mar”. E o que faria uma pessoa ser uma “loba do mar” – que seria uma mulher. Daí nasce a música “Loba” e ela dá nome ao disco. Depois, há uma questão ligada aos lobos e à forma como eles se comportam em comunidade. Achei interessante esse contraste: o lobo solitário é a coisas mais isolada e externa da sociedade, enquanto os lobos são animais com uma estrutura social fortíssima. Nos anos da austeridade, houve essa dualidade: houve pessoas que se isolaram mas também houve famílias que se transformaram, de forma a ser essa comunidade.

Dividiste o álbum em várias suites. Qual a razão para esta divisão e quando é que sentias que uma suite estava terminada?
É quase como mergulhares dentro das canções e os temas que elas falam. Ires até ao limite da canção sem te preocupares se tem três minutos e meio ou não. Vejo este disco como uma viagem. E, para o ser, as músicas tinham de ter uma viagem. Vejo as suites como os atos de um filme. O primeiro ato, o segundo (que é o problema), e o terceiro ato (que é a finalização). Que é um final em aberto. Porque a trilogia ainda não acabou (risos).