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2019 arrancou com novo single de Sam The Kid e Mundo Segundo: Gaia/Chelas. Os rappers falaram-nos do seu passado, presente e futuro partilhado. Sem esquecer os conselhos para quem procura uma carreira como MC.

No canal de YouTube TV Chelas, encontramos um vídeo de uma viagem do Sam The Kid até ao 2º piso [Estúdio dos Dealema], há cerca de 20 anos. Na altura, gravaram uma música em conjunto. Ficou perdido esse som?

Sam The Kid (STK): Gravámos dois sons. Aliás, dois em que eu participo. Também se gravaram outros sons, como um dos Dealema com os Micro – “Baile de Máscaras” – que penso que foi o único que viu a luz do dia. E gravei um som com o Mundo, era uma música em que dizia… [pausa]. “União faz a força, é uma grande distância”…

Mundo [completa]: “Da palavra à ação” (risos).

Foi o primeiro som juntos?

STK: Sim. Esse ou o som que fizemos para a mixtape do Cruzfader [Cosa Nostra, 1999], que efetivamente viu a luz do dia. Esse foi um som que escrevemos no momento, na cave do Cruzfader, com o NBC a fazer o refrão. É capaz de ser a única música em que me lembro de entrar numa mixtape sem ser no registo “egotrip”.


Visita de Sam The Kid ao estúdio dos Dealema (Fonte: Canal do Youtube TV Chelas)

No momento desse primeiro som gravado, já sentiam uma afinidade? Pensavam um dia vir a colaborar desta forma?

Mundo: Já sentíamos uma afinidade. Mas nessa altura, se calhar, não pensávamos “um dia vamos fazer um projeto”. Foi um processo natural. Fomo-nos conhecendo, partilhando conhecimento. Eu vim a Lisboa umas quantas vezes, mostrávamos beats e ficávamos a noite toda a ouvir. E o Sam ia ao Porto, ao Segundo Piso. As mixtapes ajudaram nesse processo, ao estarmos mais vezes juntos e fazermos mais coisas. Mais recentemente, há coisa de quatro cinco anos, o Sam ligou-me para fazermos umas batalhas de instrumentais e o projeto começou a avivar-se.

STK: O primeiro som que fizemos [neste projeto] foi com o New Max. É um tema que ainda não foi lançado mas que o DJ até costuma deixar a tocar no fim do espetáculo, nos nossos concertos. Criámos tudo no momento, fizemos o beat e escrevemos a rima.

E esse som vai ver a luz do dia?

Mundo: Sim. É engraçado estarmos a falar disso. As pessoas estão sempre a perguntar “quando é que sai a próxima cena?”. E grande parte do pessoal que vai aos concertos ouve esse som, no final, sem se aperceber que é um som nosso (risos). Se calhar, agora vão começar a prestar atenção a esse pormenor.

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Nesse crescimento, quais as coisas que têm em comum e que vos aproximaram?

STK: Para além do gosto musical, o facto dos dois sermos produtores e rappers. Gostamos de liricismo, de flows…

Mundo: À parte das ligações urbanas e de haver muitas coisas similares nas zonas de Gaia e de Chelas, penso que tivemos uma ligação musical. E que continua. Todas as semanas, partilhamos cenas. Continuamos a alimentar essa vertente porque somos duas esponjinhas de informação e gostamos de nos manter motivados. A motivação também nasce de ouvires algo que te inspire.

Relativamente ao processo criativo, fizeram algumas adaptações? Como é a vossa forma de criar em conjunto?

STK: O processo começa com um beat ou uma ideia. Depois surge uma sugestão de um tema… Penso que é normal, como qualquer parceria. Aparece um beat que ambos gostamos, decidimos o tema e escrevemos para esse tema.

Mundo: A única coisa que, se calhar, é um pouco diferente é a distância e o facto de irmos sempre aprimorando as músicas. Muitas vezes, voltamos a gravar, mudamos alguma coisa, acrescentamos alguns samples. Ou seja, depois de fazer o som, ainda vamos limando as arestas e isso leva meses. Como moramos a uma certa distância, temos de demorar algum tempo a fazê-lo.

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Ao longo dos anos, vocês consolidaram uma linguagem muito própria. Quando se juntaram, sentiram que as coisas encaixaram imediatamente ou tiveram necessidade de fazer adaptações, para se encontrem no beat?

Mundo: Penso que a piada é sermos diferentes e termos, por exemplo, vocabulário e expressões diferentes. É isso que traz uma coisa genuína ao projeto. Não passa por “tu vais procurar ser mais Porto, eu vou procurar ser mais Lisboa”. Não, a ideia aqui é cada um representar-se a si próprio. Desta forma, quem está a ouvir consegue viajar entre dois mundos.

Ainda sobre a questão da distância, fizeram muitos concertos em conjunto, partilhando muita “estrada”. Qual a importância desses momentos?

Mundo: É onde fazemos mais brainstorms. Acaba por ser mais isso. Musicalmente, não fazemos nada. O Sam, às vezes, traz uns beats, eu posso trazer uma ideias também… Mas musicalmente não gravamos nada, lá no quarto do hotel (risos)...

STK: Por acaso, houve uma altura em que eu levava uma MPC e fazia vários beats. Mas curiosamente, nenhum desses beats foi para a nossa cena.
Mundo: Foram para outros projetos (risos). Mas tem mais a ver com decidir o próximo passo, o que vamos escrever… Penso que é mais por aí. O que aprimoramos na estrada até foi mais o concerto em si. Como não ensaiamos, a estrada levou-nos a aprimorar o som ao vivo.

STK: E agora serviu também para gravar o vídeo do Gaia-Chelas, em que utilizámos muitas cenas de estrada.


Videoclip de Gaia/Chelas (Fonte: Canal do Youtube Mundo Segundo e Sam The Kid)

Uma das coisas que têm referido em entrevistas é que, hoje em dia, gravar músicas é tecnologicamente mais acessível, mas que é mais difícil evidenciares-te. Quais podem ser bons conselhos para quem quer começar uma carreira?

Mundo: Há pessoal que me faz essa pergunta e eu costumo responder que é melhor aperfeiçoar, antes de dares a conhecer. Hoje, o pessoal grava um som e passado meia hora põe no YouTube. Às vezes, isso não é a maneira ideal. A forma ideal é aperfeiçoares: mostras a alguns amigos, ao pessoal que tu confias e que, se calhar, vai ser mais honesto contigo. Só quando tiveres mesmo aprimorado é que vale a pena mostrares ao Mundo em geral. Às vezes, o primeiro contacto que as pessoas têm com a tua música pode ser aquilo que os prende ou que os faz abandonar-te para sempre.

STK: Acho que em Portugal, ainda há espaço para, se fores mesmo muito bom, rapidamente começares a ser falado. Apesar de haver um número muito maior de rappers do que antigamente. Se fores mesmo muito bom, a palavra vai passar. Se fores muito bom ou se fores “mais ou menos” e fizeres excelentes canções.

Referem muitas vezes – até nas vossas músicas – o papel de programas como o Repto [programa de rádio de José Mariño] em dar a conhecer músicas e possibilitar contactos. Que canais ocupam este espaço, hoje em dia?

Mundo: Tens, por exemplo, o TV Chelas. No Porto, também faço um programa, há dois anos e tal, na Rádio Nova Era – o “Skills”. Também passo muitas coisas recentes e sei que a malta nova também fica colada a ouvir. No fundo, penso que cabe a nós, que somos mais velhos, criar essas plataformas. Não quer dizer que alguém mais novo não possa ter essa iniciativa. Mas nós, que temos mais experiência, cabe-nos criar estes espaços que falam especificamente a linguagem de hip-hop. Acho que isso é importante. E hoje em dia, esse espaço foi colmatado por várias pessoas do meio, não apenas nós.

STK: Às vezes, basta uma conta de Instagram. Há contas que são plataformas. Bacanos que são colecionadores, por exemplo, que podem ter adquirido um álbum que eu nem conheço e que, por isso, o estão a divulgar.

Mundo: Hoje em dia, multiplicaram-se as plataformas. Basta procurares que consegues encontrar. O Sam The Kid até diz isso, no “Brasa”. “Não te informas e há Knowledge em muitas plataformas”. Está ligado a isso. O conhecimento tem de ser procurado, não podemos ficar em casa à espera que ele chegue. E, hoje em dia, se fizeres um bom digging, consegues obter informação muito rápido.


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Já têm data para o lançamento do álbum?

Mundo: Não temos. Neste momento, estamos a fazer músicas e é neste ritmo que vamos continuar. Hoje em dia, se lançares um álbum, para a semana, o pessoal vai encontrar-te na rua e perguntar: “Quando é que sai o próximo álbum?”. E tu respondes: “Eu lancei um álbum há uma semana”. E as pessoas costumam dizer: “Eh pah mas esse já ouvi”. Se as pessoas não sabem como consumir arte, tens de voltar a reeducar as pessoas. O que acontece, quando dás uma música, como temos feito, é que as pessoas a absorvem a totalidade. Isso para nós é espetacular e é o que queremos: que as pessoas absorvam ao pormenor, porque nós também as trabalhamos ao pormenor. Agora, datas, não existem datas. Acho que vamos continuar este método de trabalho.

STK: O álbum, eventualmente, irá existir. Mas esta forma que o Mundo descreveu é, para já, a mais natural. E acho que é também a forma mais inteligente. Faz com que as músicas tenham maior longevidade. Se depois, quando a cena sair fisicamente, houver lá músicas que já têm 10 anos, paciência, que assim seja. Encara como quiseres – um “greatest hits” – como quiseres. Apenas decidimos fazer um trabalho diferente, em movimento, e esse movimento pode durar os anos que forem necessários. Mas vamos estar presentes, uma ou duas vezes por ano, a lançar uma música ou outra desse projeto. São músicas que têm vindo a ser isoladas, todas com videoclip, que é mais uma adaptação importante aos dias de hoje. Mas as gerações futuras poderão ter um ângulo diferente de análise. Poderão ter o privilégio de ouvir um álbum todo fresco. A não ser que fiquem mega-clássicos como “A Minha Casinha” (risos). E, quando nasces, já não são músicas propriamente novas.

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