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Enquanto houver bandas trambolho como os punk ingleses Shame, os festivais não morrerão. Ao 2º dia, o SBSR ficou bastante mais desfalcado de público, porém os concertos foram mais estimulantes.

Pela terceira vez em Portugal – após as atuações, no ano passado, nos festivais Milhões em Festa e Vodafone Paredes de Coura -, os Shame deixaram bem claro porque é que devemos continuar a estar com os olhos (e os ouvidos) bem atentos neles. ‘Songs of Praise’, o álbum de estreia, político como o punk deve ser, presta homenagem à herança que este estilo musical tem há décadas em Terras de Sua Majestade. Junte-se a isso influências literárias como Irvine Welsh (olá ‘Trainspotting’) e temos o caldo entornado.

E que delicioso que é este quinteto ao vivo, mesmo que pela torreira da tarde, e com pouco público para o receber. Os que lá estiveram renderam-se ao frontman Charlie Steen, um esforçado sem esforço em palco, no sentido que a sua energia explosiva é-lhe orgânica e não pré-fabricada. Com isto, leva as gentes atrás dele, ou melhor, veio ele para junto delas, num eye contact constante que acabaria em pleno mosh. Desavergonhado, o rapaz deu tudo de si e pediu à assistência para ser pago pela mesma moeda, provando ser um daqueles casos em que, ao vivo, o carisma de um frontman faz toda a diferença no momento de separar o trigo do joio. “Que belo pôr-do-sol, que belas paisagens, que belo vinho e bela Super Bock”, disse com sorriso maroto o vocalista que já comentou várias vezes a influência nefasta que a vida em digressão pode ter para a saúde mental dos músicos. Pois bem, loucos com a sua atuação ficaram os festivaleiros, que se despediram dos Shame com a sensação de que o dia de festa no palco principal prometia.

Christine 800

E não se enganaram. No oposto do espectro musical, seguiu-se-lhes em palco, Heloise Letissier e companhia. Pois, dito assim talvez não se faça luz, já que esta jovem francesa optou por Christine and The Queens como nome artístico. Sensação do “novo pop francês”, Christine também canta em inglês. E também dança, muito, acompanhada de bailarinos, num ambiente que combina a pop de Britney Spears ou de Janet Jackson, com um musical da Broadway encenado ao milímetro. Em muitas ocasiões mais parecia que estávamos a ver um episódio da série ‘Fama’. No recinto do SBSR há um Palco LG e, se lhe somarmos a letras BT, o resultado é o tipo de público a quem a estética e a moral de Chris mais toca. É que a artista nascida em Lyon fala das questões de identidade, tanto nas suas composições como ao vivo, sempre comunicando com o público. Com dois álbuns no currículo, ela explora assumidamente uma fórmula: “problema-canção, problema-canção, tristeza-canção”. É a terapia do canto, explicando ao mundo que cada um tem direito à sua identidade.

Do país do soglan “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, chegou também ao Meco Charlotte Gainsbourg, filha das estrelas Jane Birkin e Serge Gainsbourg, atriz, cantora, amante das letras. Trouxe um glamour eletrónico ao Palco EDP, com uma estrutura de luzes e neón de extremo bom gosto, a combinar com o seu timbre de gatinha persa. Bem composto, o público dançou como se não houvesse amanhã, frente ao palco que, horas antes, tinha acolhido o mais perfeito concerto de pôr-do-sol que se poderia desejar. A culpa foi da super banda Calexico and Iron & Wine, anunciada (e com razão) como “um dos momentos mais interessantes da música alternativa”. Ou como definiu exemplarmente a revista britânica: “o deserto encontra o pântano”. Pela primeira vez em 14 anos, os músicos voltam a estar juntos e, que sortudos que somos, Portugal esteve na sua rota. 

Phoenix 800

Mas tudo isto foi apreciado por nichos de público – para terem uma ideia, em Christine & The Queens o público era tão denso quanto aquele que, às 17h00 do dia anterior, guardava lugar nas grades para a cabeça de cartaz Lana del Rey. A verdadeira enchente frente a um palco só aconteceria em Phoenix, até ao momento, o mais consensual dos espetáculos desta 25ª edição do SBSR. Esta banda indie pop (adivinhem lá!) francesa não sabe assinar temas que não sejam dançáveis. Encerrando na Herdade do Cabeço da Flauta a sua presente digressão, o coletivo liderado por Thomas Mars não concebe composições do outro mundo mas tem o condão de ser coesa na sua good vibe. “Ti Amo” é o mais recente disco dos Phoenix, título que pode parecer piroso para alguns mas que faz sentido numa banda que em palco aposta num cenário de neons kitsch. A verdade é que acabaram punks, ao jeito dos Shame, com crowdsurfing e cervejs à mistura. A encerrar a noite no palco principal, também o produtor haitiano-canadiano Kaytranada fez do público a sua marioneta, numa imensa rave de influência hip-hop e com as meninas bonitas da assistência a ganhar projeção nos ecrãs gigantes.

(Fotos de Nuno Andrade)

Kaytranada 800

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