Um novo Lar

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Depois de ouvir a pergunta “o que mudou na tua vida?”, o estudante Rafael Jerónimo dá uma resposta quase imediata: “Muita coisa”. Desde logo, começa por dizer, depois de 18 anos a viver em Pombal, trocou “a cidade pequena” pela “cidade grande”, ao entrar no curso de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores, no Instituto Superior Técnico, em Lisboa. “É totalmente diferente”, reforça, antes de deixar um exemplo: “Tinha andado de Metro uma ou duas vezes na vida. Agora é uma rotina diária”.

A mudança de cidade é uma realidade para uma parte muito significativa dos estudantes do Ensino Superior. Segundo os dados mais recentes do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, 42% do total de estudantes são “deslocados”. A mudança implica, na maioria das vezes, uma recém-achada independência e autonomia. E também capacidade de adaptação.

É esse o caso de Geraldino Barbosa, de 19 anos. Natural de Aveiro, estuda hoje em Rio Maior, na Escola Superior de Desporto. “Como também pratico futebol, não consigo ir a casa tantas vezes e acabo por ficar sozinho: isso é uma coisa um pouco difícil”, conta, antes de realçar: “Mas já me habituei. Sinto falta de casa, mas essa saudade é um pouco atenuada por conhecermos muita gente que se torna parte da nossa família”.


 

“Sinto falta de casa, mas essa saudade é um pouco atenuada por conhecermos muita gente que se torna parte da nossa família”
Geraldino Barbosa, 19 anos


 

A adaptação chega também em outros espaços. Como, por exemplo, na cozinha. “Quando cheguei, não sabia fazer nada”, recorda, entre risos. A estratégia passou por aprender coisas básicas – “como fazer massa ou arroz” – com os colegas de casa ou em chamadas telefónicas para a família. O resultado parece animador: “Uma pessoa vai inventando, se for preciso: hoje, já consigo fazer uma coisa boa para mim”.

Associada a esta mudança, chega também uma outra: a gestão das compras, das despesas e, consequentemente, do dinheiro. Para Geraldino, a principal mudança está na necessidade de “estar atento ao que falta em casa e fazer essa gestão”.

Uma boa prática para os estudantes, destaca Rafael Jerónimo, poderá ser, ainda durante o Ensino Secundário, “ganhar alguma liberdade, para a mudança não ser tão drástica”. Para Rafael, será útil começar a “fazer pequenas coisas em casa, a ir às compras ou a cozinhar”. Acima de tudo, sublinha, “ter a preocupação de sair da zona de conforto e participar em coisas novas”.

Em todo este processo de adaptação, considera a estudante de Enfermagem na Universidade do Porto, Mara Silva, de 19 anos, “poderemos não nos habituar logo às mudanças”. Contudo, realça, “serão as próprias responsabilidade e autonomia poderão ajudar-nos”. “Arranjamos a nossas próprias soluções”, conclui.

 

Uma nova rede de amizades

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As mudanças, contudo, não se ficam pela residência. Mesmo quem se mantém na mesma cidade e/ou a viver com os pais, pode esperar mudanças. Desde logo, poder não conhecer nenhum dos colegas de curso. “Há muito tempo que não me acontecia”, recorda a estudante de Psicologia, Bárbara Lopes, de 18 anos, que considera existir “uma vantagem”: “Como ninguém se conhece, não há grupos formados e todos estão mais disponíveis a conhecer-se”. “Os mais tímidos é que poderão ter uma adaptação mais complicada”.

No primeiro dia, Mara “tinha muito medo porque não conhecia ninguém”. Mas, quando começou a conhecer os colegas, “acabou por ser um dos melhores momentos” da sua vida, ao poder “descobrir as primeiras afinidades com os outros”. Por outro lado, a estudante vê esta fase como uma nova oportunidade: “Durante o secundário, temos o rótulo da pessoa que éramos, temos uma bagagem para trás. Na faculdade, temos a possibilidade de sermos realmente nós”.


 

“Durante o secundário, temos o rótulo da pessoa que éramos, temos uma bagagem para trás. Na faculdade, temos a possibilidade de sermos realmente nós”.
Mara Silva, 19 anos

 


 
É a mesma razão que leva Rafael Jerónimo a realçar a importância dos estudantes “se abrirem aos outros, sendo eles próprios”. A marca deve ser a da autenticidade, explica. “Não devemos criar uma personagem porque, a longo-prazo, isso não vai resultar – não vamos conseguir ser alguém que não somos”. “Ainda por cima, no Ensino Superior, há uma maior liberdade para sermos o que queremos”, conclui.

Relativamente a esta vertente da integração, os estudantes destacam o papel das atividades organizadas pelas próprias faculdades, pelas associações de estudantes ou pelos próprios estudantes. Os programas de mentoria e tutoria são destacados como bons exemplos, tal como as atividades em grupos ou associações. Contudo, mais do que esperar por estes momentos organizados, realça Rafael Jerónimo, ter uma postura ativa poderá ser decisiva: “Conhecer alunos mais velhos e falar sobre a experiência deles, seja sobre trabalhos do curso ou sobre o que sentiram, pode ser mais eficaz do que algo mais institucional. Talvez tenhamos a tentação de pensar que somos os únicos a passar por aqui, mas os nossos colegas podem sentir o mesmo. Não devemos ter vergonha de falar com eles”.

 

Um novo ritmo de trabalho

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As mudanças chegam também ao interior da sala de aula. O Ensino Superior traz consigo novos métodos de aprendizagem, de avaliação e de trabalho. “Senti uma maior exigência logo na primeira semana”, recorda Geraldino Barbosa, explicando que, no Ensino Superior, encontrou uma maior quantidade de matéria lecionada a uma maior velocidade.

Todos os estudantes contactados pela Forum destacam essa maior exigência. Bárbara Lopes sublinha as diferenças entre um “teste” e um “exame” do Ensino Superior, com menos perguntas que são, por sua vez, mais centradas em respostas de desenvolvimento. Rafael Jerónimo diz mesmo começar a perceber que “o Ensino Secundário era uma brincadeira – matéria que durava um ano, agora dá-se em semanas”.


 

“Talvez tenhamos a tentação de pensar que somos os únicos a passar por aqui, mas os nossos colegas podem sentir o mesmo. Não devemos ter vergonha de falar com eles”.
Rafael Jerónimo, 18 anos


 
A maior carga de trabalho, contudo, não implica, para Mara Silva, um maior nível de dificuldade. “Sinto que na faculdade acaba por ser mais fácil: não há pressão do patamar das notas que existia no Ensino Secundário e é mais fácil estudares aquilo que gostas, existe outra motivação”. A maior intensidade de estudo, concorda Rafael Jerónimo, é expectável neste patamar e implica “saber selecionar o que é prioritário. A própria seleção da forma de estudo e a gestão do tempo são muito importantes”.

 

Uma nova responsabilidade

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Novas Amizades, moradas ou formas de trabalhar. Todas estas são mudanças que ocorrem no contexto da vida de estudante. Contudo, grande parte da transformação é mesmo interna. Crescimento ou desenvolvimento são mesmo das palavras mais repetidas pelos estudantes entrevistados.

Uma das principais mudanças é relativamente fácil de compreender. Com independência acrescida, chega responsabilidade acrescida. A aplicação desta máxima pode ser encontrada numa qualquer manhã gelada, em que a almofada nos tenta convencer a não ser abandonada. A decisão passa a estar nas tuas mãos. Vais faltar à aula?


 

“Existe a tentação de ‘abusar’ da independência, mas, no final, sabemos que faltar nos vai prejudicar. É desta forma que se combate essa tentação”.
Bárbara Lopes, 18 anos


 
“Muitas vezes, se estivermos cansados, por exemplo, podemos ter aquela tentação de ficar na cama, não há ninguém para nos guiar”, destaca Geraldino Barbosa. É nessa altura que chegamos ao momento decisivo. Tomar a decisão correta, explica, “exige de nós autocontrolo emocional e ter princípios, metas e objetivos. Eu notei muito essa mudança, a necessidade de ser mais responsável e autónomo”.

Neste crescimento, há algo que poderá ser decisivo, destaca Rafael Jerónimo: “Ver isto a longo-prazo”. Ou seja, “ter presente o que nos fez vir para a faculdade – fazer o curso, aprender e ter notas minimamente boas”. “Existe a tentação de ‘abusar’ da independência”, concorda Bárbara Lopes, “mas, no final, sabemos que nos vai prejudicar faltar”. “É desta forma que se combate essa tentação”, reforça.

A autodescoberta é outra das tónicas do discurso dos estudantes. Geraldino Barbosa garante estar “muito contente”, nomeadamente por ter a possibilidade de se conhecer melhor a si próprio. “É uma questão de liberdade: temos a possibilidade de descobrir a nossa identidade”, completa Mara Silva. Bárbara sente-se satisfeita pelas etapas que tem vindo a ser conquistadas. Já Rafael Jerónimo resume a sua reação a todas estas mudanças em duas frases: “Sinto-me muito bem. Sinto que estou a crescer”.