As séries de adolescentes são uma das categorias com maior tradição no mundo televisivo norte-americano. Ao longo das últimas décadas, várias gerações de personagens marcaram o imaginário de outras tantas gerações de espectadores – das aventuras analógicas de Beverly Hills 90210 aos solos vocais de Glee, passando pelo drama de pequena cidade presente em Dawson’s Creek

Estes e outros títulos criaram uma espécie de linguagem comum para séries sobre adolescentes. Durante anos, as principais dinâmicas centraram-se nas diferenças socioeconómicas (como em The O.C.), no confronto entre subtribos “populares” vs. “nerds” (Freaks and Geeks), bem como nos elementos que podem marcar a adolescência como a descoberta sexual, as desventuras de triângulos amorosos ou a pressão das expectativas parentais, por exemplo. Tudo isto, sem esquecer problemas como a violência no namoro ou a dependência de drogas.  

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Ainda que, nas séries adolescentes atuais, estes temas se mantenham representados, aos poucos, estas temáticas passaram a ser tratadas de forma cada vez mais sombria, apresentando versões mais cruas realidade. Esta é uma tendência que se verifica, por exemplo, na série 13 Reasons Why (2017), onde são incluídas cenas de violação ou de suicídio. Também a série Riverdale (2017) se destaca neste capítulo, incluindo vários homicídios, por exemplo.

Como escreve a Paste Magazine, Euphoria é a mais recente contribuição para a súbita explosão de conteúdo sombrio que tomou conta do género de série adolescente”. Esta viragem não significa abandonar as fórmulas e temas tradicionais mas, antes, abordá-las de outra forma. O portal Nylon, por exemplo, destaca como os tópicos abordados continuam a “ser relevantes para os adolescentes de hoje”, sendo que a principal diferença no facto destes temas serem apresentados de forma mais explícita e noir


«Num artigo de 2019, o jornal The Guardian lançava a pergunta: “Será Euphoria a série de adolescentes mais chocante de sempre?»




As mudanças no
 ambiente do político americano, nomeadamente a maior politização da Geração Z, nos Estados Unidos da América, é apontada como uma das explicações para esta mudança de tom nas séries de adolescentes. No caso de Euphoria, também é destacado o efeito da Internet numa geração que é nativa digital. “Euphoria é sobre adolescentes que crescem online. Mostra como uma geração vive e aprende através de uma Internet permanentemente acessível e sem filtro”, escreve o IndieWire.

                                                                             
O mundo de Euphoria 

Num artigo de 2019, o jornal The Guardian lançava a pergunta: “Será Euphoria a série de adolescentes mais chocante de sempre?”.  A série assume-se como um retrato “cru e realista” da vida adolescente, incluindo cenas de sexo, overdose ou nudez.  Uma das cenas mais polémicas apresenta ao espectador um slowmotion onde se contam... 30 pénis diferentes. 

 

 

 

 

Há pais que vão 'passar-se' completamente”, disse o criador de Euphoria, Sam Levinson, à Hollywood Reporter, referindo-se às cenas mais explícitas da série. No mesmo artigo, a atriz Maude Apatow, de 21 anos, considera que esta é uma “boa forma de mostrar como é difícil crescer nestes tempos”, antes de destacar: “Não estamos a tentar fazer um Gossip Girl”.  

As declarações mostram o confronto entre as séries de adolescentes do passado e do presente. Em entrevista ao The Guardian, o criador explica que a aposta em “assuntos sérios e material duro” tem como objetivo fazer passar uma mensagem de uma forma adequada às características da juventude: “Não queria fazer algo que fosse tão baseado em personagens a falar sobre sentimentos, porque um dos aspetos mais difíceis de ser jovem é não ser capaz de descrever como nos sentimos”.  

 

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Sobre (mas não para) adolescentes?

A narrativa de Euphoria segue a protagnista Rue Bennett, adolescente de 17 anos, que regressa de um verão passado numa clínica de reabilitação, recuperando de uma dependência de comprimidos. É a partir da voz narrativa de Rue que conhecemos outras personagens como a melhor amiga Jules, o atleta Nate ou Kat, que tem uma vida secreta na Internet. Depois de uma primeira temporada de grande sucesso, a série lançou episódios especiais, no início deste ano. 


 


«Não queria fazer algo que fosse tão baseado em personagens a falar sobre sentimentos, porque um dos aspetos mais difíceis de ser jovem é não ser capaz de descrever como nos sentimos»
Sam Levinson, criador de Euphoria




As cenas gráficas de Euphoria levam mesmo o seu criador a afimar, numa entrevista ao IndieWire, que não considera que a série seja para menores de 17 anos. Ainda assim, ressalva, “espero que crie um diálogo entre os pais e os seus filhos – se os pais quiserem ter uma conversa esse tema, isso é uma coisa boa”. “Espero que as pessoas sintam alguma coisa, que vejam que não estão sozinhas, que o que estão a ultrapassar é real”, reforçou.                                                   

No passado, várias vozes criticaram a série por levar conteúdo adulto a adolescentes e pré-adolescentes. Com uma segunda temporada a caminho, é expectável que Euphoria volte a pintar a realidade adolescente com conteúdo explícito. Um retrato que, escreve Doreen St. Félix, na revista New Yorker, “só destruirá a inocência dos adultos que querem manter a ilusão de que o sexo, a violência, a profanidade, o uso de drogas, para não falar do revenge porn, não existem na vida dos liceus [americanos]”.