No final do vídeo de promoção da série “Outra Escola”, um grupo de estudantes do Liceu Camões olha diretamente a câmara e declara, a uma só voz: “Precisamos de mudança”. No primeiro episódio do programa, estes mesmos estudantes partilham as suas preocupações sobre o sistema de ensino, procurando soluções concretas. A dimensão do programa educativo, a duração das aulas, o número de alunos por turma, as formas de avaliação e de acesso ao ensino superior são algumas das questões debatidas.

“É uma inquietação que partilhávamos naquela altura e até mesmo antes de entrar no Ensino Secundário”, conta um dos estudantes que participa no episódio, Vicente Magalhães. Para o estudante, um dos principais méritos da série “Outra Escola” está, precisamente, em “colocar o enfoque no que os estudantes pensam ou dizem”. “Não somos uma caixa que recebe conhecimento dos professores – a Escola deve ser um diálogo e não um monólogo”, reforça.

 

 

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Outra Escola (Promo) from Vende-se Filmes on Vimeo.

 

 

Para uma das criadoras da série, Filipa Reis, essa é também uma das razões pela qual a “Outra Escola” tem especial interesse para os estudantes: “É a oportunidade de saber o que os colegas pensam e, a partir daí, concordar, discordar ou ter outras ideias”. “O que mais nos interessa é que os estudantes percebam que têm uma voz e que essa voz é útil”, reforça.

A mesma ideia é realçada por Vicente Magalhães: “Os estudantes também têm voz e espero que este programa a faça ouvir – essa é a sua principal e muito digna aspiração”. Por vezes, o ritmo da escola, realça, não deixa tempo para “pensar no que se pretende mudar” ou para “dar corpo a uma iniciativa de mudança”. A ação, contudo, garante resultados, destaca, recordando o movimento dos estudantes para a realização de obras no Liceu Camões – “é um exemplo em que a intervenção dos alunos trouxe mudança”.

 

“O que mais nos interessa é que os estudantes
percebam que têm uma voz e que essa voz é útil”.
Filipa Reis, co-criadora de "Outra Escola"

 

 

Uma viagem pela Educação

A série documental “Outra Escola” – criada por Filipa Reis, João Miller Guerra e Maria Gil – estreou, no dia 27 de outubro, na RTP2. Ao longo de um total de 13 episódios de 25 minutos, o programa propõe a apresentar “diferentes formas de aprender e pensar a educação”. As formas de avaliação e aprendizagem, o processo de decisão, a motivação dos estudantes ou as características de métodos alternativos de ensino são alguns dos temas que guiam esta viagem.

Antes da produção desta série, o trio de criadores trabalhou, ao longo dos últimos anos, com estudantes e turmas de várias escolas do país. “Falávamos bastante sobre o interesse a necessidade de pensar a educação”, conta Filipa Reis. A partir daí, centrados na questão “como é que se aprende?”, decidiram fazer um conjunto de entrevistas a especialistas sobre educação que são incluídas na série – no primeiro episódio participam, por exemplo, Álvaro Laborinho Lúcio, Guilherme d’Oliveira Martins ou Miguel Tamen.

 



Podes assistir ao primeiro episódio de Outra Escola aqui (Link RTP Play)

 


 

A partir deste contributo, conta a criadora, criou-se “o mosaico de temas” a abordar durante os 13 episódios da série. Em cada um deles, são ouvidos vários intervenientes do sistema educativo, depois da realização de exercícios, jogos ou outras dinâmicas “com o objetivo de estimular uma conversa profunda e espontânea”. As conclusões “no terreno” são depois cruzadas com as entrevistas a especialistas. O resultado, conta a criadora da série, é um diálogo entre o pensamento sobre educação e o que sentem ou pensam os estudantes, professores, encarregados de educação, entre outros agentes educativos.

 

Uma oportunidade num “ponto de viragem”

Para uma das professoras ouvidas durante programa, Paula Gonçalves, do Colégio Valsassina, o interesse em participar surgiu “logo após conhecer o título” da série. A reflexão sobre “o que poderá ser diferente na Escola”, acredita, é muito relevante: “Já não é possível continuar a responder aos problemas [atuais] com sistemas antigos – os tempos mudaram e os alunos têm outras necessidades, outras formas de atenção”.

No seu dia a dia, Paula Gonçalves sente que há espaço para tentar perceber os problemas dos alunos e refletir sobre estratégias para os resolver, destacando o papel de instrumentos como o Conselho de Turma, onde encarregados de educação, professores e estudantes pensam em conjunto estas questões. Contudo, ressalva, condicionantes como a necessidade do cumprimento de programa ou a pressão dos exames nacionais, faz com que nem sempre seja possível implementar soluções.

 

Imaginar uma outra escola
Série documental foca "diferentes formas de aprender" e de "pensar a Educação", ao longo de 13 episódios

 

Neste contexto, considera Paula Gonçalves, a série “Outra Escola” é “mais uma oportunidade para refletirmos sobre os problemas que persistem”. Uma oportunidade que surge, sublinha a professora, “num ponto de viragem”, destacando o recente programa de flexibilização curricular do Ministério da Educação como uma forma de tornar a relação ensino-aprendizagem “mais flexível e autónoma, adaptada às necessidades de cada estudante”. Neste contexto, a reflexão sobre o sistema educativo é especialmente relevante, acredita, concluindo: “Não há outro caminho que não a mudança”.

 

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