Como é que começou a tua relação com a música? Quais são as primeiras memórias que tens e como é que ela acabou por ganhar forma na tua vida? 

Lembro-me de, desde muito pequenina, gostar muito de música. Em casa sempre se ouviu muita música. Sei que tenho vídeos em pequenina a cantar agarrada a um comando de televisão como se fosse microfone, portanto talvez já houvesse ali qualquer coisa (risos). Isto começou a ser bocadinho mais a sério quando me apareceu pela primeira vez o anúncio de que iria haver o primeiro The Voice Kids em Portugal. Eu tinha 12 anos e disse logo aos meus pais queria participar e eles concordaram. A maior primeira experiência que existiu foi certamente essa e foi o primeiro momento mais marcante, sem dúvida. 

Sentes que houve aprendizagens que fizeste nessa fase que tenham sido importantes? 

Sim, sem dúvida. Eu nunca tinha tido aulas de voz, por exemplo. E tínhamos vocal coaches que nos guiaram durante o percurso. Foi bom perceber que a voz é um instrumento que também é trabalhado. Pude também explorar a forma como se pega nas canções, na letra e na interpretação, bem como a forma de estar em palco. Houve muita coisa que aprendi, sem dúvida: tudo que envolve palco, câmaras, luzes e público. 

 

 

E se pensares nessa relação com a música, como é que sentes que ela evoluiu ao longo dos anos, a partir desse momento inicial? Como é que tem sido esse caminho? 

Desde aí que nunca perdi vontade de ter a música muito presente na minha vida. E isso foi-se refletindo no meu percurso. Depois do The Voice Kids cantei em vários eventos e festas. Depois, fiz teatro musical durante dois ou três anos, que foi importante em vários aspetos como o estar em palco, a dança e o teatro. Acaba por culminar tudo na arte do espetáculo, da performance. Acho que isso foi, sem dúvida, uma boa escola também. Depois estive no Hot Club Portugal, enquanto estava no ensino secundário. Foi o primeiro contacto mais teórico, mais a sério. 

E depois de entrares no Ensino Superior?

Quando entrei no ensino superior, fui estudar Direito e fiz uma pequena pausa por não conseguir conjugar tudo. Depois, fomos para a quarentena com a pandemia da Covid-19 e comecei a criar mais em casa. Comecei a ouvir mais música, a conhecer novos artistas que foram aparecendo nessa altura e fui-me identificando com a ideia de fazer isso também. Só pensava que tinha que estudar para as orais e para os exames. Mas a minha vontade era estar a fazer música. Tinha a secretária dividida entre códigos e constituições e o teclado MIDI e os cadernos de música. Acabei por me deixar um cair para o lado da música. Falei com os meus pais e disse que queria sair de direito e ir estudar música. Foi um passo um bocadinho difícil, por ser mais incerto, mas eles perceberam que seria o que me faria feliz e que era o que fazia sentido. 

 

 

 

 

Foi então que foste estudar Jazz e Música Moderna.

Sim, na Universidade Lusíada. Foram três anos de licenciatura em que eu tive contacto com muita música porque era tudo o que fazia. Fosse nas aulas ou fora das aulas, estava a estudar música. Acabei também por conhecer muita gente da indústria. E pronto, a partir daí, já muito dentro do meio, fui-me deixando levar. 

Qual é que foi a diferença que sentiste na tua experiência no ensino superior quando ajustaste aquilo que era a teu percurso académico àquilo que seria a tua vocação? Como é que isso se refletiu no teu dia-a-dia? 

Em termos de empenho é bastante diferente, sem dúvida. Sentia que o que estava a estudar ia efetivamente ser a minha profissão de sonho. Em Direito, apesar de ser uma área que eu gosto, sentia que não me ia preencher totalmente, até porque tinha sempre a música ali a chamar por mim. Quando mudei para a Música, senti que estava finalmente a 100% numa coisa que quero que seja a minha vida. Quando se deu esse clique, estava totalmente entregue e o empenho era outro. Claro que às vezes não me apetecia estudar ou ir às aulas, mas tinha a música sempre a envolver todo o meu dia, fossem aulas mais teóricas ou mais práticas. Foram três anos muito bons. 

 

 

E pensando nesses três anos, existem ferramentas que tenhas aprendido e que utilizas hoje em dia? Ou seja, qual é o impacto que o curso acaba por ter na tua atualidade? 

Acho que a coisa que eu talvez mais tenha tirado do curso é a linguagem musical entre membros de uma banda. É uma “ginástica” muito importante de ter para depois levar para o palco e para a vida. Depois, há coisas mais teóricas, como poder escrever as cifras das minhas músicas, os acordes para poder dar partituras aos músicos. Conseguir ler música, se me entregarem alguma coisa. Portanto, o que senti foi que pude usar e abusar de ferramentas que achei que me iriam dar jeito mais para a frente. 

E do ponto de vista do desenvolvimento pessoal, sem ser a questão técnica, sentiste que foi tempo importante? 

Senti. Porque estávamos todos ali para o mesmo e não é um meio propriamente fácil, em que se acaba de fazer o curso, vai-se trabalhar e em poucos meses tem-se um emprego mais certo. Não é assim, é bastante mais independente, é um processo mais solitário e estávamos ali todos juntos para o mesmo. Isso também dá um certo conforto. Os professores também foram sempre importantes neste percurso e são amigos hoje em dia, são colegas. Acho que essa ligação também foi especial e que vai continuar a manter-se assim daqui para a frente. 

 


«[No curso de Jazz e Música Moderna] sentia que o que estava a estudar ia efetivamente ser a minha profissão de sonho […] estava totalmente entregue e o empenho era outro»

 

Numa entrevista em 2024, disseste querias puxar “os volumes dos sons estranhos”. Sentes que, de alguma maneira, é uma herança do jazz? 

Não sei. Em certo ponto, talvez seja, porque o jazz, principalmente assim nos momentos de improviso, tem coisas que por vezes não são o que soa melhor ao ouvido para algumas pessoas. Acho que isso se calhar foi uma coisa que aprendi com o jazz – não ter medo de errar, não ter medo que as coisas soem mais fora da caixa, porque é isso que nos dá mais identidade. Na criação deste álbum, procurámos momentos que não fossem os mais óbvios e colocá-los mais à frente, não os esconder lá atrás. Queria mesmo que isso me definisse de alguma forma, que definisse a minha identidade.

E até agora, neste teu percurso, há alguma coisa que tenha surpreendido sobre a opção de ter uma carreira no mundo da música? 

Eu acho que todos os dias me vou surpreendendo. Parece bocadinho clichê, mas é verdade. Todos os dias me vou surpreendendo ao ver que há tanta gente a ouvir-me e a mandar-me mensagens porque, de alguma forma, a música lhes tocou. E isso é sempre uma surpresa. Da mesma forma que eu sinto isso com músicas de artistas que admiro, de repente, vejo que há pessoas a sentir isso com músicas minhas. E isso é incrível mesmo. 

 

 

Qual é que é a importância que tem, no teu processo, receberes esse feedback

Para mim é mesmo sentir que, de alguma forma, o que estou a escrever está a fazer sentido para alguém. Porque a maior parte das músicas que crio nascem de dores minhas ou de coisas que eu senti. De repente, perceber que há muita gente que já sentiu ou sente o mesmo e que, de alguma forma, a música vai curando aos bocadinhos certas dores das outras pessoas, deixa-me feliz. Da mesma forma como outras músicas me curaram a mim algumas dores. É esse o propósito que tenho quando escrevo. Acho que é por isso que é tão importante para mim, por perceber que o que faço está a ressoar nas pessoas, de alguma forma. 

E o que é que esperas que aconteça no futuro, próximo e distante da tua carreira? 

O que eu quero mesmo é agora tocar este álbum ao vivo e que as pessoas vão a esses concertos. O meu sonho é que isto agora vire rotina – lançar álbuns e fazer concertos. 

E há alguma coisa queiras acrescentar? 

Vou apresentar o meu álbum em concerto, no dia 12 de maio, no Teatro Maria Matos, em Lisboa. Vai ser a primeira vez que toco o álbum do início ao fim, com mais algumas músicas que não estão no álbum, mas quem me ouve já conhece. Acho que vai ser concerto muito especial e estou muito entusiasmada por esse dia, para poder colocar isto tudo no palco. E cantar com quem já conhecer alguns refrões, alguns versos. Acho que vai ser bonito.