“Tenho 25 anos, sou de Lisboa e sou humorista”. Eis Pedro Teixeira da Mota, o rapaz que, a 1 e 2 de novembro, saboreia lotação esgotada na sua estreia em nome próprio, no Coliseu de Lisboa, graças ao espetáculo de stand up comedy "Caramel Macchiato". Antes disso, em outubro, podes vê-lo em Aveiro, Guimarães e no Porto. E já, já, podes ler esta entrevista para ficar a conhecer melhor o criador de ask.tm – o podcast independente com mais ouvintes em Portugal – e cocriador do programa do YouTube Erro Crasso.


FE: Foi difícil para os teus pais aceitarem-te como humorista?

PTM: Nunca foi um problema. O meu pai é advogado, a minha mãe é professora. O meu pai sempre quis que não tivéssemos um percurso como o dele. Mal comecei a desenvolver interesse pelo stand up, os meus pais apoiaram-me. Nunca tiveram medo que eu fosse artista e agradeço-lhes imenso. Só houve encorajamento.

 

A tua maior fã é a tua avó, certo?

Sim, ela foi ver o espetáculo do ano passado e gostou. E também há de ir ver o novo. No meu podcast, costumo falar da minha avó. Apesar de já ter 92 anos, percebe perfeitamente as coisas de que falo, algumas que até nem são para avós perceberem. Ela dá-me conselhos bons.

 

 

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Nunca te disse “excedeste, não brinques com isso”?

Não, nunca. Sou o único neto, entre várias netas, logo sempre houve aquela coisa do neto preferido. Isso estende-se a um ponto que posso falar sobre qualquer coisa que a minha avó vai sempre dizer: “ah, ele é engraçado, sei que é bom miúdo, por isso, pode dizer este disparate”.

 

E tens sido “bom miúdo”?

Ahhhh…. Não sei se sou (risos). Não sou mau, como é óbvio. Também me irrita um bocado aquilo de se ser “boa pessoa”. Fico zangado com coisas, posso ser invejoso com outras. Toda a gente tem isso. Todas as pessoas são más, às vezes. Nunca ninguém é sempre boa pessoa, portanto, claro que também tenho defeitos. Há pouco tempo fiz uma tatuagem que diz “mau, mas bom”. Gosto do conceito de dar a volta: de fazer uma coisa que parece que não é, mas é tão “não é” que dá a volta e é.

 

Em criança já eras engraçadinho?

Sim, sempre. Nunca fui de usar isso para ter amigos ou para não sofrer bullying, ainda que sempre deu jeito para ser popular entre as raparigas. Tenho vídeos meus, com 9/10 anos, a imitar os sketchs dos Gato Fedorento e a inventar outros com amigos. É giro de rever porque há certas coisas em que ainda me acho piada.

 

 


 

"Gosto do conceito de dar a volta: de fazer uma coisa
que parece que não é, mas é tão 'não é' que dá a volta e é".
Pedro Teixeira da Mota

 


 

 

 

És muito crítico de ti próprio?

Bastante. Sou muito obcecado em ver trabalhos meus para perceber se estou a fazer coisas que me irritam ou se estou a falar demasiado de qualquer tema. Analiso imenso as minhas coisas. Pode acontecer-me olhar para os tweets e pensar: “hmm, isto aqui já não é bacano ou já não faz sentido”. Como estou sempre a avaliar os outros, estou-me sempre a avaliar a mim. No humor, acho que tudo está sempre a ficar melhor com o tempo. Agora há mais métodos, instrumentos, distorções, possibilidades. Certos tipos de humor correm o risco de ficarem muito datados. Tenho mais tendência para ver as coisas que se fazem agora, lá fora e cá.

 

Pedro Teixeira da Mota

 

 

Hoje, há glamour em torno dos humoristas?

Há cada vez mais humoristas e mais palcos. Há mais pessoas interessadas em humor. É um fenómeno recente, em explosão. Nós, humoristas, só dependemos de nós para termos público e fazermos as coisas bem. Antes, o humorista era muito associado ao velho que está no bar, gordo, sujo, com bêbados a rirem-se à volta. Desde que comecei, que penso que o humorista é também um artista e pode ser uma estrela. Não precisa de ser o bêbado num comedy club com pouca luz.

 

 

O que é que te inspira?

Sou muito de coisas que me acontecem. O que tem graça é a forma como conto essas histórias. Não gosto muito de fazer piadas com temas da atualidade. Gosto de pensar nas possibilidades e nos exageros das coisas que vejo. Apetece-me mais criar o meu tema do que falar no tema do momento.

 

Quanto tempo do teu dia dedicas à produção de humor?

Tenho picos de atividade. Estou sempre a trabalhar e nunca estou a trabalhar. Mesmo numa festa com amigos, nunca aproveito a 100% o momento porque estou sempre a ver-me de fora e a pensar: “ya, quando um gajo está com os amigos, acontece isto e aquilo”. Estou sempre a tirar notas para telemóvel, sempre atento e alerta, mas isso também me dá prazer. Citando Sam Kid: “Ter a profissão não é uma missão, é uma consequência”.



Pedro Teixeira da Mota



Licenciaste-te em Gestão. É o teu plano B para o futuro?

Já não. Mas ajudou-me a ter um cérebro melhor, o que é útil em termos de organização. Por exemplo, tenho todas as atuações que já fiz num documento, com datas, local, cachet, etc. Isso prova que levo isto a sério. Alguns dos problemas dos humoristas da atualidade é quererem ser levados a sério, mas eles próprios não levarem a sério o seu trabalho.

 

Como se distingue um bom humorista de um mau?

Tenho sempre esperança que as pessoas consigam distinguir o que é básico ou mau, que até pode ser visto como um guilty pleasure, daquilo que é original. Mas há várias dicas: se não cai em clichés, se é diferente e genuíno. Não devemos fazer “coisas que resultam”. Isso não existe: resulta se fizermos bem. Cada um deve ver qual é o seu forte: tenho lata para falar? Sou melhor em piadas escritas ou em acting? Também é importante darmos a conhecer o nosso projeto e, nesse sentido, o audiovisual é o melhor porque chega a mais pessoas. É encontrar o que se gosta, ser genuíno e acreditar nisso. Há que trabalhar e não se ser preguiçoso. A obsessão é um dos segredos e é uma das minhas características de que gosto mais.