«A rádio era muito diferente. Hoje, a cena indie/alternativa está quase no mainstream. A minha ideia era dar espaço a bandas que não cabiam na playlist e das quais gostava. Havia pouca divulgação desse tipo de música. A nossa vida também era diferente, já que não havia Internet. Hoje as pessoas conseguem descobrir muita coisa por elas próprias. Podem é precisar de filtros. Na altura precisavam de quem lhes mostrasse. Eu e mais algumas pessoas fazíamos esse trabalho de "guerrilha"», evoca Nuno Calado sobre os primórdios do Indiegente, há 21 anos atrás.
«Quando o programa começou, a Antena 3 era muito mais mainstream. O objetivo era um programa mais à esquerda. Hoje, a própria rádio está à esquerda e o programa foi ainda mais para a esquerda, passando coisas ainda mais alternativas. Para mim, a rádio tem sido sempre um desafio e uma luta. Houve momentos em que não foi fácil ter o programa no ar», confessa. Hoje também existem muitas mais rádios "concorrentes" neste nicho de mercado que já não é assim tão pequeno.
Placebo, Ben Harper, Garbage e Smashing Pumpkins são dos alguns exemplos de artistas que quase ninguém conhecia por cá e que foram «acarinhados» neste formato da Antena 3. Isto sem contar com as bandas grunge ou da escola de Chicago. No seu trabalho de pesquisa, Nuno Calado investia em revistas internacionais da especialidade, como Enemy, Melody Maker, Q, Spin, Clash ou Wire. Na adolescência, quando era «um geek sempre de livros debaixo do braço», namorava os discos nas montras das lojas até ter dinheiro para comprá-los. Hoje, há um excesso de informação, de álbuns e singles. «Provavelmente existe muita gente que conhece muito mais coisas do que eu e que não tem um programa de rádio. Nos anos 80/90, ter um programa era sinónimo de ter uma cultura musical maior do que a maioria das pessoas, mas ao mesmo tempo era relativamente fácil andarmos em cima das novidades. Havia meia-dúzia de lançamentos», conta quem já não ambiciona chegar a todo o lado. E sim, escuta a concorrência: «Às vezes apanho coisas a ouvir colegas. Não tenho pretensão de ser o primeiro a passar. Há 20/15 anos podias ser o farol. Hoje em dia o papel de um radialista como eu é mais de retranca, como um filtro, como se as pessoas confiassem no nosso gosto musical».
Nuno Calado tem tido feedback de pessoas mais novas e de algumas da sua geração [48 anos] ou até mais velhas. Às vezes fica surpreendido com as «coisas simpáticas» que lhe dizem, como o facto de terem aprendido a ouvir música com ele. «Meu, lembraste do que nós pensávamos do António Sérgio, que tínhamos crescido ao som dele? Já há uma geração que nasceu connosco», constatou-lhe um dia o colega de ofício Henrique Amaro. «Tenho noção que hoje a maioria do público está mais virado para estilos como o hip-hop, a kizomba e a música eletrónica, mas isso não me tira o foco daquilo que procuro. Tenho sempre alguma dificuldade de categorizar música. As coisas valem sempre por aquilo que sinto».
O programa de autor é um formato que, há uns 10 anos, correu mais perigo de extinção do que hoje, crê o radialista. «Agora, nas rádios alternativas há mais programas de autor, apesar do grosso da programação ser em playlist. Muita gente não se apercebe que aquilo não são músicas escolhidas por quem está a fazer a emissão. E já não é preciso ter uma grande voz mas antes saber comunicar, admite.
O advento do formato digital trouxe-nos uma espécie de «pescadinha de rabo na boca» em direção aos anos 60, quando artistas como Beatles ou Elvis, lançavam vários singles e só depois o álbum. «Agora nada te impede de fazer um disco com dois temas de meia hora e as bandas podem prescindir de uma editora para estar no mundo inteiro. Na passagem do suporte físico para o digital houve ali um período de estranheza. Mas adaptei-me bastante rápido. Já deixei de comprar CD há algum tempo, tenho comprado muito vinil. Mas há muito tempo que faço o meu programa com o meu laptop. Uso o Spotify para ouvir os discos todos, para ter uma ideia geral, mas vou comprando temas avulso que me interessam para trabalhar. Tenho saudades de ter tempo para ouvir um disco em repeat a semana inteira», confessa Nuno, que até é um rapaz calado, mas não quando tema é música.

Indiegente passa de segunda a quinta-feira, das 23h e às 24h, na Antena 3.
Indiegente Live
Mazgani, Señoritas, Surma, Adolfo Luxúria Canibal, Fast Eddie Nelson, Frankie Chavez, Mr. Gallini, Sam Alone, Scúru Fitchádu, Sean Riley, Tó Trips e The Poppers, são alguns dos muitos músicos com quem desenvolveu «laços de amizade e de admiração artística», em duas décadas de programa». E por isso foram convocados para o espetáculo de 13 de outubro, no LAV, no âmbito do qual os artistas se cruzarão em palco em registo non stop. O show começa às 21h00. Os bilhetes custam 12€. «Espero que no fim todos estejam de coração cheio», diz o anfitrião.
(Fotos: Vera Marmelo)






