Se estás em Línguas e Humanidades e escolheste o curso também para “fugir” à Matemática, podes respirar de alívio: esta mudança não é para ti. Mas, para quem ainda está no 3.º ciclo, o secundário pode vir a ser bem diferente.
O anúncio foi feito na quarta-feira, 4 de novembro, pelo ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, durante uma audição no Parlamento sobre o Orçamento do Estado para 2027.
“Teremos um tronco comum em que a Matemática será obrigatória do 10.º ao 12.º ano.”
O que é, afinal, uma “matriz curricular”?
É o documento que define que disciplinas tem cada curso e quantas horas por semana lhes são dedicadas. É, no fundo, o “esqueleto” do teu horário. Mexer na matriz significa mudar aquilo que todos os alunos estudam obrigatoriamente e aquilo que podem escolher.
O que muda face ao modelo atual
Hoje, o tronco comum do secundário — as disciplinas que todos os alunos dos cursos científico-humanísticos têm — é curto:
- Português e Educação Física são as únicas obrigatórias nos três anos;
- Filosofia e uma língua estrangeira fazem parte do tronco comum apenas no 10.º e no 11.º ano;
- a Matemática depende do curso: existe em Ciências e Tecnologias e em Ciências Socioeconómicas, por exemplo, mas não é obrigatória em Línguas e Humanidades nem em Artes Visuais.
Com a proposta, a Matemática passa a integrar o tronco comum durante os três anos e em todos os cursos, incluindo os profissionais. Os alunos de Humanidades e de Artes Visuais serão os que mais vão sentir a diferença.
Em troca, o ministro promete mais margem de escolha. Depois do tronco comum, “os alunos terão um percurso com flexibilidade em que terão a possibilidade de fazer opções, incluindo no ensino profissional”, explicou.
Porquê esta mudança?
Segundo o documento apresentado aos deputados, o Ministério quer combater aquilo a que chama “fragmentação e superficialidade curricular”, dando prioridade às aprendizagens consideradas estruturantes — ou seja, menos dispersão e mais foco no essencial.
Portugal não seria caso único: noutros países, como o Reino Unido, também já se discutiu pôr todos os alunos a estudar Matemática até aos 18 anos.
Quando entra em vigor — e a quem se aplica?
| Etapa | Quando |
|---|---|
| Consulta pública da nova matriz do secundário | dezembro de 2026 |
| Revisão das Aprendizagens Essenciais e dos programas | 2027 |
| Entrada em vigor da nova matriz do secundário | ano letivo 2028/2029 |
Quem está hoje no secundário não deverá ser abrangido. Se a nova matriz arrancar pelo 10.º ano em 2028/2029, os primeiros a estreá-la serão, previsivelmente, os alunos que este ano frequentam o 8.º ano. O calendário exato de aplicação a cada ano de escolaridade ainda não foi detalhado.
Uma reforma maior do que a Matemática
A Matemática obrigatória é a medida que deu mais nas vistas, mas faz parte de uma revisão curricular mais ampla, que assenta em quatro dimensões: estrutura dos ciclos, matriz curricular e tempos letivos, aprendizagens essenciais e documentos curriculares e conteúdos. Entre as propostas:
Fusão do 1.º e do 2.º ciclos
Cria um bloco comum para os primeiros seis anos de escolaridade. Será testada em algumas escolas num projeto-piloto em 2027/2028 e também vai a consulta pública em dezembro.
Secundário do 7.º ao 12.º ano
Segundo o documento do Ministério, o secundário passa a ser organizado do 7.º ao 12.º ano, em duas fases.
Mais liberdade de escolha
O tronco comum é reforçado, mas os alunos deverão ter mais liberdade para escolher as restantes disciplinas.
Novas Aprendizagens Essenciais
Com competências digitais e de inteligência artificial integradas de forma transversal, e articulação com a literacia financeira.
O que ainda não sabemos
O anúncio deixou várias perguntas em aberto, que só a proposta em consulta pública deverá esclarecer:
- Que Matemática? Hoje existem várias disciplinas (Matemática A, Matemática B, Matemática Aplicada às Ciências Sociais…). Não se sabe se os alunos de Humanidades terão a mesma Matemática que os de Ciências ou uma versão adaptada.
- Quantas horas? Se entra uma disciplina no tronco comum, alguma coisa terá de ser ajustada no horário. Não foi dito qual será a carga horária nem que disciplinas podem perder tempo.
- E os exames? Ainda não há informação sobre se haverá exame nacional de Matemática para todos ou como contará para o acesso ao ensino superior.
- Haverá professores? A falta de docentes continua a ser um problema: o próprio Ministério contabilizava, a 2 de novembro, 255 horários por preencher nas escolas.
Como podes dar a tua opinião
Uma consulta pública é precisamente o momento em que qualquer pessoa — incluindo estudantes — pode ler a proposta e enviar comentários antes de ela ser aprovada. Quando a nova matriz for publicada, em dezembro, vale a pena:
- ler a proposta (ou pedir a um professor que a apresente na turma);
- discutir com colegas, associação de estudantes e professores o que funciona e o que não funciona;
- enviar contributos, individualmente ou através da associação de estudantes.
São os alunos que vão viver esta mudança. Faz sentido que também sejam ouvidos.



