A palavra “torneio” ou poderá ser facilmente associada a imagens de esforço físico. Contudo, desde 2012, o Torneio Nacional de Debates Universitários (Tornadu) mostra como nem todas as competições fazem suar uniformes. Neste exercício, o objetivo é simples, explica o Conselho Nacional de Debates Universitários (CNADU), no seu website: através de argumentos, defender uma moção que poderá “propor uma alteração” ou fazer “uma declaração” sobre qualquer tema.

“De certa forma, é um desporto. Intelectual, mas um desporto. Temos regras e treinamos”, explica a Presidente da Comissão Executiva do CNADU, Ana Cláudia Freitas, que sublinha: “Como em qualquer desporto, há pessoas com mais talento e qualquer pessoa pode melhorar através do treino”. 

 



"De certa forma, é um desporto. Intelectual,

mas um desporto. Temos regras e treinamos"
Ana Cláudia Freitas, Presidente da Comissão Executiva do CNADU


 

O torneio segue o modelo competitivo British Parliamentary a forma mais utilizada de debate académico. Quatro equipas de duas pessoas debatem uma moção, sendo que metade são a favor e outra metade contra. Cada participante tem direito a uma intervenção de 7 minutos. Será a performance agregada de cada equipa que decide o vencedor. 

Os participantes conhecem a moção e o respetivo tema em debate (bem como a sua posição) apenas 15 minutos antes do seu início – tempo que utilizam para se preparar, sem recurso a meios eletrónicos. “Os debates não se focam no conhecimento sobre determinado assunto”, realça Ana Cláudia Freitas, mas sim “sobre o raciocínio”. “A ideia passa por, a partir de certa premissa, conseguir mostrar se ela é boa ou má”, reforça.

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Porto acolhe Torneio Nacional de Debates Universitários

De 21 a 23 de fevereiro, o Tornadu passa pelo Porto. A organização é do Conselho Nacional de Debates Universitários (CNADU), em conjunto com a Sociedade de Debates da Universidade do Porto. Realizado desde 2012, o Tornadu é o ponto de encontro para os estudantes universitários que praticam Debate Competitivo.


 
Como “aprender a pensar”

Bianca Francisco tinha 18 anos quando, acabada de entrar no Curso de Relações Internacionais no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), soube que poderia participar num debate universitário. O desejo de experimentar esta atividade era já antigo. “Durante o Ensino Secundário, gostava de debater ideias nas aulas sempre que possível”, conta.

Por essa razão, assim que alguns colegas de curso referiram a possibilidade, aceitou imediatamente o desafio. Durante o seu primeiro debate, estava “um pouco nervosa, mas sobretudo entusiasmada”. No final, a experiência foi muito positiva, conta: “Foi muito divertido e gostei logo imenso”.

 

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Cada participante tem direito a uma intervenção de 7 minutos. Será a performance agregada de cada equipa que decide o vencedor. 

 

Nesse primeiro debate, rapidamente foi confrontada com a necessidade de defender ideias com que não concordava totalmente. Algo que acontece com frequência nos debates universitários e que Bianca considera ser “bastante importante”, pelo valor empático envolvido. “Somos levados a experimentar outros pontos de vista e aprendemos coisas que, à partida, desconhecíamos”, explica. 

Durante o Ensino Secundário, Bianca já sentia já vontade de participar nestes debates. Para a estudante natural de Torres Vedras, debater poderá ser uma atividade especialmente importante, nessa fase da vida (ver caixa): “No [Ensino] Secundário, começamos a ter ideias sobre política ou sociedade e, por vezes, não conseguimos explicar-nos. Isso limita-nos e faz com que possamos não ser levados a sério”.

 

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Torneio Nacional de Debates Universitários (Tornadu) realiza-se de 21 a 23 de fevereiro, no Porto

 
Por essa razão, para a estudante que participará na edição de 2020 do Tornadu, este tipo de debates são “uma forma de ganhar ferramentas que permitem outro tipo de participação cívica e política, bem como desenvolver competências pessoais”. Acima de tudo, destaca, encontra-se um complemento importante a uma educação formal focada na “memorização de informação”: “Aprendemos a pensar nas coisas”.

 

Uma ferramenta para a vida

Participar neste tipo de debates, sublinha a presidente do CNADU, pode ajudar as pessoas “a analisar informação, a pensar por elas próprias, refletindo e questionando a informação que lhes chega”. No seu caso, Ana Cláudia não tem dúvidas: “A partir do momento que entrei nos debates, senti isso mesmo, comecei a refletir sobre a informação de uma outra maneira”.

Este desenvolvimento poderá ser especialmente pertinente, acredita Ana Cláudia Freitas, face à grande quantidade de notícias ou conteúdos falsos existentes online, numa era em que “o acesso à informação é muito facilitado, mas a filtragem dessa informação nem sempre é fácil”.

  



"[Os debates são] uma forma de ganhar ferramentas que permitem outro tipo de participação cívica e política, bem como desenvolver competências pessoais”
Bianca Francisco, participante do Tornadu


 

De igual forma, embora discussões se multipliquem pelos vários canais de social media, essas trocas de argumentos poderão “não ser tão produtivas” – “Muitas vezes, as pessoas não estão atentas ao que os outros dizem. É o que falta um pouco hoje, nomeadamente nas caixas de comentários ou redes sociais, e é isso que queremos colmatar”. 

Independentemente do curso ou da carreira de um estudante universitário, destaca Ana Cláudia Freitas, “irá sempre existir a necessidade de falar em público e de convencer ou persuadir outras pessoas”. Nesse sentido, esta é uma oportunidade de estimular capacidades como o raciocínio rápido e competências transversais como comunicação, autoconfiança.

 

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Simultaneamente, esta é também uma forma de oferecer aos estudantes universitários uma oportunidade que poderá ser rara nas suas vidas: “conhecer pessoas de outros cursos e áreas, num contexto intelectualmente estimulante”. “Esta é uma ferramenta que se pode levar para a vida”, conclui. 

 

E o Ensino Secundário?

Enquanto estrutura nacional, o CNADU reúne representantes das várias sociedades de debates das instituições de Ensino Superior. Isto não significa, contudo, que o debate de competição não esteja presente noutros níveis de ensino, como o Ensino Secundário. “Algumas sociedades já estão presentes em Escolas Secundárias”, revela, a presidente do CNADU, explicando que está prevista, ainda para este ano, a criação de uma competição exclusivamente dedicada para estudantes deste nível de ensino (modalidade schools). Por outro lado, o CNADU está a trabalhar no sentido de criar “uma sociedade de debates para o Ensino Secundário”.

Para já, qualquer estudante do Ensino Secundário poderá inscrever-se nas sociedades que compõem o CNADU e participar nos treinos semanais e, mais tarde, nos torneios organizados. Para além da reflexão sobre os temas em debate, esta poderá ser também uma forma dos estudantes do Ensino Secundário saberem mais sobre a experiência no Ensino Superior, “tirando dúvidas e colocando questões”. “Têm muito a ganhar com esta experiência e no arriscarem em participar e conhecer”, conclui.

 

 

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