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E quando chegaste à organização de acolhimento como foi conhecer os restantes membros?
Depois de ter falado com o Sérgio, quando imaginava a Dínamo, imaginava algo grande. Mas quando cheguei, percebi que era algo mais pequeno, composto por apenas quatro pessoas. Não foi dececionante, apenas diferente do que imaginava... Todos eles ficaram entusiasmados quando cheguei e foram bastante simpáticos, amigáveis e atenciosos. Em pouco tempo tornaram-se família! Um dos aspetos positivos do SVE é que te dá bastante liberdade para teres o teu tempo e para fazeres as tuas coisas. Mas ao mesmo tempo és bastante dependente das outras pessoas, especialmente com tudo o que seja burocrático e administrativo. Para mim isto foi algo novo, mas correu sempre tudo bem! Sei de outros voluntários do SVE que tiveram algumas dificuldades em ultrapassar alguns desafios com os membros das organizações onde estavam.

O que é que um SVE faz assim que chega à organização de acolhimento?
No dia em que cheguei fui à Dínamo pela primeira vez para dizer olá e conhecer o espaço. Nesse dia acabamos por almoçar todos juntos e essa foi a parte mais interessante. Estava bom tempo, por isso trouxemos tudo cá para fora e almoçamos no parque lá ao pé. Conversamos, rimos, foi muito engraçado! Porém ao mesmo tempo foi estranho fazer esta refeição na rua durante o dia, quando as pessoas da Associação Islâmica usam aquele espaço para rezar. Eles olhavam para nós e achavam tudo muito estranho (risos). Foi aí que comecei a conhecer melhor as pessoas e as tradições daquele sítio. Estes primeiros dias de SVE foram os melhores! Tínhamos sempre estes momentos de pausa, em que toda a gente saía dos computadores e nos juntávamos para comer e para conversar. Nesses momentos pude conhecer melhor a comunidade.

Em termos de trabalho, quais eram as tuas principais funções?
Primeiro tinha que conhecer a estrutura da Dínamo, os seus projetos, ler tudo sobre a sua estratégia. Na altura o Sérgio estava encarregue de fazer os relatórios finais dos projetos que estavam a terminar, por isso pediu-me ajuda para fazer o layout. Esta foi a minha primeira tarefa concreta e passei horas na Dínamo apenas a fazer isto. Foi engraçado porque empenhei-me mesmo naquilo e não parei enquanto não acabei. Quando chegou a outra rapariga para fazer SVE na Dínamo, queríamos fazer alguma coisa juntas e tivemos a ideia de criar workshops de inglês. Também participamos no evento local Tapada em Festa, onde organizámos a banca da Dínamo. Na Escola da Leal da Câmara de Rio de Mouro organizámos o Dia dos Direitos Humanos. Havia muita coisa administrativa, mas havia também estas atividades mais dinâmicas.

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Na Tapada das Mercês, sendo um sítio bastante multicultural, não tinhas apenas a barreira com a língua portuguesa mas também com a língua de países africanos. Como foi lidar com as duas?
Apesar das aulas de português que ia tendo, devido à barreira linguística, às vezes recebia a informação muito mais tarde, ou não a recebia de todo e por vezes era complicado. Um dos voluntários da Dínamo, de origem africana, tentou também ensinar-me algumas palavras em crioulo, mas eu simplesmente não percebia nada (risos). A melhor parte era quando ficávamos os dois durante horas a tentar explicar uma frase um ao outro, como quando eu tinha que explicar o que é que precisava dele (porque ele era programador e eu designer). Então íamos ao Google tradutor e escrevíamos aquilo queríamos dizer (risos).

E no dia-a-dia, por exemplo ir às compras era difícil?
Se eu visse os ingredientes que estavam na caixa, não era tão difícil. Mas se na embalagem não tivesse nada e não se parecesse com nada que alguma vez tivesse visto, então aí simplesmente improvisava (risos). Havia muitas coisas que eram diferentes. Por exemplo, na Sérvia temos uma coisa que se parece com grão-de-bico, mas muito salgado e muito amarelo. Nunca tinha provado diretamente da lata como há cá.

Quando não estavas na Dínamo como é que passavas os teus tempos livres?
Sou uma pessoa que gosta de aproveitar o dia! Havia um café em Sintra onde ia muitas vezes e aí conheci pessoas que estavam na pousada lá ao pé. Além dos passeios, esta era uma das coisas de que gostava muito em Sintra. Também ia passear para Lisboa, mas à noite saía pouco. Nunca ia para festas malucas, pois para mim o SVE era mais uma experiência profissional. Claro que divertir-me também era parte dessa experiência e fiz alguns amigos ao longo do caminho, mas estava mais virada para a minha auto-capacitação.

Apesar de teres sempre gente à tua volta, havia dias em que sentias a vontade de regressar a casa?
Sim, isso acontece sempre. Em experiências de SVE de longa-duração, tens sempre momentos em que estás mais bem-disposta e outros em que estás mais em baixo. Quando isso acontece sentes sempre saudades de casa, ficas com medo de não saber o que te espera quando regressares ao teu país, medo que as coisas mudem. Houve uma vez que me senti mesmo em baixo e foi bastante duro, nesses dias comecei a sentir ainda mais a falta da família e dos amigos, as conversas pelo skype passaram a ser mais longas... Mas tive a oportunidade de ir a casa durante duas semanas em Fevereiro a meio do SVE e isso foi bom!

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Depois da experiência, como foi fazer SVE em Portugal e quais foram as principais dificuldades que sentiste?
Em termos monetários, o dinheiro extra que dão no SVE costuma ser sempre igual, mas no meu caso tive sorte, porque a minha organização de envio deu-me também cartões para os transportes e dinheiro para a alimentação. Chegava perfeitamente para viver, porque as restantes despesas eram pagas pelas duas organizações. O que foi difícil para mim foi lidar com a parte burocrática. No meu país a burocracia administrativa é bastante exigente, mas também aqui, para tentar organizar alguma coisa, demorava imenso tempo. Outra dificuldade era o facto de, sendo a Tapada uma comunidade pequena, era sempre um desafio levar as pessoas a tornarem-se mais ativas. Ao início tudo isto foi cansativo, mas com o tempo aprendi a ser paciente e tolerante.

Quais foram os aspetos que mais te marcaram no SVE?
O que mais gostei foram as pessoas, o ambiente, a oportunidade de aprender, o facto de as pessoas terem sempre paciência e tempo para me mostrar coisas novas, de me darem a oportunidade para poder fazer algo. A minha experiência no SVE foi bastante enriquecedora, pois noutras ONGs por vezes és apenas mão-de-obra, onde te dão tarefas em que não precisas tanto de usar a cabeça mas apenas as mãos. Mas na Dínamo deram-me a oportunidade de apreciar novas perspetivas e de participar em novas experiências. Era um ambiente tipo parque infantil, onde podia fazer muitas coisas! Assim não me sentia obrigada a estar ali, estava ali porque me sentia bem e isso é muito importante.

E isso mudou a tua maneira de ser?
Sim, tive a sorte de me ter mudado de uma maneira positiva. Porque algumas experiências de SVE podem ser totalmente opostas.

Como está o teu português depois disto?
Depois de alguma prática e de ter mais umas aulas, já consigo ter uma conversa normal com as pessoas locais que não falam inglês. Sinto que já estou a ter uma relação melhor com as pessoas porque já sou capaz de falar com elas em português.

Ainda continuas a fazer voluntariado?
Sim, quando cheguei ao Porto para fazer o doutoramento encontrei uma ONG, a Medestu, da qual passei a fazer parte. Ao mesmo tempo, estou a fazer voluntariado numa quinta pedagógica, a Quinta do Mitra, guiada por membros da ONG Terrasolta. Conheci-os por um trabalho que fiz com eles para o meu doutoramento e desde então sou membro regular todos os sábados.

Um conselho para futuros voluntários no SVE...
Acho que todas as pessoas deviam viver esta experiência! O SVE é uma experiência única, enriquecedora e que te trás novos desafios. É um momento de liberdade incondicional que te dá os meios para te expressares e para aprenderes mais sobre ti própria, sobre quem tu és e o que gostavas de ser. É um processo de longa duração que consiste em muitas descobertas e em muitas horas de interação com novas pessoas, culturas, línguas e ambientes, que te pede um compromisso mas que no fim te dá boas memórias e aprendizagens.

 

O Serviço Voluntário Europeu
Faz parte do programa Juventude em Ação e dá a oportunidade a jovens dos 18 aos 30 anos de ter uma experiência de voluntariado no estrangeiro, na sua maioria remunerada, incluindo alojamento, viagens e transportes. Para ser um voluntário no SVE, é necessário fazer parte de uma organização de envio estabelecida no país de origem, e escolher uma organização de acolhimento num país estrangeiro, consoante a área que a pessoa mais gosta. Esta será a sua casa durante um período de voluntariado de 2 a 12 meses.

Artigo Escrito por Ana Sofia Pereira, estudante de Comunicação Social na FCSH-UNL

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